A Cadência Frígia: de Monteverdi ao Metallica

A Cadência Frígia: de Monteverdi ao Metallica

Cadência Frígia é um movimento de acordes que está presente em nossa cultura musical há vários séculos. Neste artigo se encontram muitos exemplos dessa cadência em gêneros musicais diferentes. Após uma introdução que contextualiza a cadência frígia e sua teorização, Alexandre de Orio faz um trabalho minucioso, nos presenteando com vários exemplos áudios bem explicativos.

A cadência frígia tem um som muito peculiar e muito marcante, de fácil reconhecimento auditivo; é um tipo de cadência que ouvimos há séculos e podemos encontrá-la em diversos gêneros e estilos musicais.

Ela está inserida na que chamamos de semi-cadência. Tal cadência marca os finais de frases sob a harmonia da dominante, isto é, a frase termina no V grau e tem um caráter completamente suspensivo.

São várias as possibilidades de acordes que podem preceder o V grau na Semi Cadência, a cadência frigia é uma delas.

Ela está vinculada ao modo menor e obedece ao padrão iv6 V. A grande marca está no semitom, ou seja, a 2ª menor na linha do baixo e que acontece entre o penúltimo e último acorde da cadência. O nome frígia está relacionado à sonoridade do modo frígio, caracterizada pela 2ª menor.

Há mais duas variações harmônicas que podem ocorrer, que são:

Uma pequena observação

Existe aqui um problema muito ocorrente referente à cifragem. Este acorde é conhecido como 6ª aumentada, ou seja, é um acorde com função de pré-dominante e que possui a sexta elevada. O objetivo desta nota, ou seja, a 6ª aumentada, é resolver na fundamental do acorde seguinte. Devido a isso, há um vínculo entre escuta e escrita (cifragem) e que vem de uma emancipação melódica. Dito isso, a cifragem usada na música popular para este acorde é de sétima menor, como está cifrado acima, isto gera uma dissociação entre a escrita e a escuta, uma vez que a direcionalidade proposta por uma sétima menor num acorde dominante é de resolver descendo para a terça do acorde de resolução, entretanto, neste caso a resolução seria subindo. Isto ocorre porque na música popular a base da cifragem se faz por sobreposição de terças e assim a enarmonia da nota ré# para mib se faz necessária.

O acorde de 6ª aumentada, em geral, pode aparecer de três formas: Ger⁺⁶ (Germânica), It⁺⁶ (Italiana) e Fr⁺⁶ (Francesa) e cada um deles tem sua peculiaridade. Não vou me deter a explicações aqui, pois não é o foco do artigo.

Esta última variação é mais comum encontrá-la no repertório do século XIX, ou seja, em compositores do romantismo como Schumann, Chopin, Brahms, Beethoven etc.

É muito comum encontrarmos estas progressões de acordes neste tipo de cadência:

  1. i v⁶ iv⁶ V Am  Em/G  Dm/F  E                  
  2. i VII VI V Am   G   F (7)   E(7)
  3. i i₂ VI V Am  Am/G  F  E

* No exemplo C) o acorde “i₂” é cifrado como C/G.

Algumas outras possibilidades:

  1. I v⁶ Ger⁺⁶ V Am   Em/G   F7* E
  2. i vii°⁶/VI VI V Am   E°/G   F   E
  3. i V⁴₃/VI VI V Am   C7/G   F   E

* F7 → Lembrando que ocorre uma enarmonização nesta cifragem.

No exemplo abaixo – um trecho do Madrigal de Monteverdi “Anima mia” – temos o Sol menor como centro tonal. No terceiro tempo do segundo compasso temos a nota Mib no baixo, sendo a terça do acorde do iv (Cm), que desce para a nota Ré (fundamental do acorde dominante que é o Ré maior).

Anima mia, perdona (Madrigal) – C. Monteverdi:

O exemplo a seguir – um trecho da Suite Francesa n. 3 de J.S. Bach – está na tonalidade de Si menor. Observe no penúltimo compasso a cadência IV⁶ (Em/G) V⁷ (F#⁷). Esta é uma das mais encontradas. Veja novamente o primeiro exemplo da semi-cadência descrita acima.

Suíte Francesa nº 3 – J. S. Bach

O próximo exemplo também é da época barroca, e também utiliza a cadência iv⁶(Gm/Bb) V(A). Veja o penúltimo e último acordes.

*Os números menores localizados embaixo da partitura são chamados de baixo cifrado, e têm a função de indicar quais os intervalos devem ser tocados acima do baixo. Uma prática muito comum no período barroco.

Sonata VII para violino e contínuo Op. 5, Sarabande – A. Corelli

Abaixo, temos um exemplo da utilização do acorde de sexta aumentada na cadência frígia. O Trecho é da Bagatella op. 119 de L.V.Beethoven, um dos grandes representantes do romantismo. Veja a progressão “d” descrita anteriormente. Repare o penúltimo acorde: a nota do baixo é Mib formando um intervalo de sexta aumentada com o Dó#. Preste atenção na sua resolução no próximo acorde, em que essas duas notas atingem a nota ré no último compasso, que é a fundamental do acorde dominante (Ré maior).

Bagatella opus 119 – L. V. Beethoven

Saindo do universo da música erudita, vamos agora encontrar a cadência no repertório de música popular.

Os exemplos a seguir são duas músicas muito famosas no repertório do Heavy Metal, e são duas bandas representativas do gênero, Black Sabbath e Metallica.

Repare que aqui não temos o acorde completo. Ao invés disso, temos os assim chamados Power Chords ou Bicordes, formados apenas pela fundamental e a quinta do acorde – algumas vezes a fundamental é oitavada.

Apesar do acorde não estar completo, a harmonia fica clara.

Repare a cadência frígia na descida de meio tom no penúltimo para o último power chord, assim como a pontuação da melodia nos finais de frases. Como mostrado anteriormente, temos aqui uma daquelas progressões muito utilizadas.

Os dois exemplos possuem o centro tonal em Mi menor.

N.I.B. – Black Sabbath

The Four Horseman – Metallica

O exemplo a seguir pertence ao pop, e utiliza exatamente a progressão “a”, descrita no texto acima. Observe a nota mais grave, a nota Ré (3ª do acorde de Sim) descendo para a nota Dó# (fundamental do acorde) no segundo e quarto compasso.

*Há um detalhe aqui, pois antes do último acorde (C#7), há um acorde “Sus”, isto é, um acorde “suspenso”, ou seja, quando a 4ª está no lugar da 3ª no acorde. Esse movimento melódico é muito comum, repare no terceiro tempo do segundo compasso: a nota Fá# (4ªJ do acorde C#7) que vai para a nota Mi# (3ªM do acorde C#7).

Shape of my Heart – Sting

Vejamos o exemplo da cadência frígia no gênero Soul Music. Este é um ótimo exemplo e muito bom didaticamente, pois toda música acontece em torno somente dessa cadência. O tom da música é Láb menor. Repare a finalização da cadência suspensiva no V grau, ou seja, no acorde de Eb⁷.

Hit The Road Jack – Ray Charles

Ray Charles - Cadência Frígia - De Monteverdi aos Metállica
Clara Nunes - Portela - A cadência Frígia - Estudos de harmonia

A seguir, encontramos a cadência em um samba. O tom está em Ré menor. Repare que o penúltimo acorde (Bb7) é aquele acorde de sexta aumentada, que aí está reharmonizado.

Portela na avenida – Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro

O exemplo a seguir é de uma banda de rock and roll do final da década de 80, formada por George Harrison, Jeff Lynne, Roy Orbison, Bob Dylan e Tom Petty. O trecho abaixo que contém a cadência frígia é a parte A da música.

The Runaways – Travelling Wilburns

Dire Straits - Sultans of swing - Curso de Harmonia popular - Análise harmônica

Vejamos agora um clássico do rock and roll que utiliza a cadência frígia ao longo da inteira música. O tom é Ré menor. Aqui a harmonia no segundo compasso caminha mais rápida.

Sultans of swing – Dire Straits

A seguir vai um pequeno estudo de arpejos sobre a cadência frígia. Apesar de não ser o foco do artigo, é também um ótimo estudo da técnica “sweep”. O estudo está na tonalidade de Mi menor.


Alexandre de Orio

É bacharel em guitarra pela FAAM (Faculdade de Artes Alcântara Machado, do grupo FMU); pós-graduado em “Estruturação e Linguagem Musical” pela Faculdade de Música Carlos Gomes e “Docência Superior em Música” pela FAAM. Cursou “Improvisação no Jazz e História da Música Popular Brasileira” na pós-graduação da UNICAMP, “Os territórios da improvisação: Pensamento e ação musical em tempo real” na pós-graduação da USP e “Seminários de Pesquisa em Música” na pós-graduação da UNESP.

Autor do livro “METAL BRASILEIRO: RITMOS BRASILEIROS APLICADOS NA GUITARRA METAL. NOVOS CAMINHOS PARA RIFFS DE GUITARRA. VOLUME 1 – SAMBA METAL” (www.metalbrasileiro.com).

Guitarrista de umas das maiores bandas de heavy metal do underground brasileiro, a banda CLAUSTROFOBIA (www.claustrofobia.com.br), que possui cinco álbuns lançados e um DVD. Tocou com diversas bandas importantes no cenário do metal e realizou turnês pelo Brasil e Europa.

É integrante do Quarteto de Guitarras Kroma (www.quartetokroma.com)

Para maiores informações visite o site do artista clicando aqui

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