A harmonia da Bossa Nova – Parte 1

A harmonia da Bossa Nova – Parte 1

A bossa nova é conhecida por suas harmonias rebuscadas, por seu refinamento melódico e pelo seu “balanço”. Aprender a tocar nesse estilo musical requer um estudo específico de suas características estético-musicais. Falarei aqui da harmonia da bossa nova, sugerindo algum exercício e algumas ideias para o seu estudo. Aproveite, no final desse post, a música “A influência da bossa”, com sua partitura, vídeo e base áudio.

Uma olhada nas partituras dos grandes compositores, nos permite observar que raramente, na harmonia da bossa nova, utilizam-se simples tríades, preferindo a isso acordes que ofereçam sonoridades mais “ricas”. A harmonia utiliza notas que enriquecem os acordes, como, nonas, sextas, décimas-terceiras, etc.

Além do emprego raro de formações triádicas, os encadeamentos de acordes privilegiam o movimento das tensões melódicas de maneira característica, ao passar de um acorde para outro, como iremos observar sucessivamente.

Todavia, falar do uso de notas que enriquecem os acordes de base, é apenas uma das características harmônicas. Ao observarmos mais de perto, podemos colher uma quantidade maior de elementos característicos, tão interessantes que vale a pena um estudo aprofundado.

Em meu livro Piano Bossa Nova: método progressivo, divido o estudo da harmonia da bossa nova em três “camadas”, que resumirei a seguir:

  • Estudo por tipologias de acordes: cada tipo de acorde possui sonoridades e tratamentos peculiares;
  • Estudo de clichês rítmico-harmônicos característicos;
  • Voicings característicos que representam a sonoridade da bossa nova ao piano.
Bossa nova ao piano

O que significa Voicing

Com o termo inglês voicing se indica uma determinada estrutura do acorde, isto é, uma determinada disposição de suas notas. É com esse termo, então, que nos referimos às posições dos acordes. Vejamos, por exemplo, o voicing 6-2-b3-5 em três tonalidades diferentes:

O que significa voicing

No que diz respeito às tipologias de acordes observamos, por exemplo, a prática da alternância entre 7ª e 6ª nos acordes maiores e menores, veja a figura ao lado.

A alternância entre 7ª e 6ª permite criar uma maior riqueza sonora, por exemplo quando a harmonia da música permanece por mais tempo em um único acorde.

Além da alternância entre 7ª e 6ª, observamos que todos os acordes da figura são caracterizados pela presença de um cluster. Com esse termo – sua pronúncia é “claster” – indicamos, normalmente, um conjunto de intervalos de segunda maior ou menor. Repare que na figura o cluster se encontra entre as notas 9 e 3 de cada acorde. O cluster confere uma sonoridade muito interessante, parece “engrossar” a harmonia.

Observe a figura a seguir: a categoria de acordes maiores, enriquecida de sextas e nonas, em posições que permitem clusters, gera voicings muito interessantes. O primeiro pentagrama apresenta acordes “tradicionais” com sextas e sétimas, ao passo que os acordes do segundo pentagrama apresentam voicings muito interessantes:

É interessante estudar cada voicing da figura acima em todos os tons. Uma primeira maneira pode ser a de estudar cromaticamente. Por exemplo, o estudo do voicing 2-3-5-7 (primeiro acorde do segundo pentagrama da figura) pode ser realizado como mostra o vídeo abaixo. A imagem a seguir contém sua transcrição (clique na imagem para ampliá-la).

Vejamos, a seguir, o estudo do voicing 7-2-3-5 (segundo acorde do segundo pentagrama da figura apresentada acima) em todos os tons. Abaixo encontra a partitura e o vídeo.

Para finalizarmos os estudos desse post, apresento uma bossa nova de minha autoria (também contida no livro Piano Bossa Nova: método progressivo) e, em seguida, os voicings para o seu acompanhamento.

A influência da bossa

influencia-da-bossa

Abaixo, do lado esquerdo, encontram-se os voicings utilizados para o acompanhamento dessa música (clique para ampliar a imagem). Do lado direito encontra-se o vídeo com sua realização.

Acordes da bossa nova

Divirtam-se bastante ao tocar, ao piano, essa música, junto à sua base disponibilizada aqui, contendo o violão da gravação original.

Clique aqui para ler a Segunda Parte do artigo.

Pianista, compositor, atua como professor e palestrante em instituições, festivais de música pelo Brasil e cursos de pós-graduação. Turi é Coordenador Pedagógico do Terra da Música e professor de alguns cursos online. É autor de métodos em livros e DVD. Em 2012, seu CD autoral “Interferências” foi publicado no Japão. Seu segundo CD faz uma releitura moderna de algumas composições do sambista Noel Rosa.

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