Bass Clinic: Elis Regina e o Montreux Jazz Festival “À la basse, Luisón”

Bass Clinic: Elis Regina e o Montreux Jazz Festival “À la basse, Luisón”

O Festival de Jazz de Montreux já está, esse ano, em sua 49ª edição. Em sua história, momentos gloriosos e outros questionáveis, mas a realidade é que o evento é um dos mais importantes do circuito jazzístico mundial, coroa os artistas que se apresentam ali, e ajudou a projetar para o mundo a pequena e bonita cidade de Montreux, na Suíça, que cheira a chocolate e beira o belo Lago Léman, revelando cordilheiras cobertas de neve e uma paisagem estonteante.

Há algum tempo, tive um encontro com Claude Nobs, fundador do Montreux Jazz Festival, e assim que falei que era do Brasil ele me perguntou: “Você gosta de Elis Regina?”, demonstrando claramente que algo especial acontecera naquele dia 20 de julho de 1979, dia que marcou de forma especial a memória do idealizador do projeto.

Eu estava ali participando de um trabalho de responsabilidade social realizado pela MCI, ensaiando com a banda do The Little Dreams Foundation, que é um belíssimo trabalho de inclusão e educação musical, artística e esportiva para crianças, uma ONG com sede também na Suíça, liderada por Orianne e Phil Collins.
Ao deixar o auditório Stravinski após o ensaio do grupo, caminhando até o hotel, eu pensava sobre o encontro com Nobs e sua menção à nossa Pimentinha, e me lembrava de algumas linhas de baixo do Luizão Maia nesse show, e de alguns momentos do dueto Hermeto-Elis que aconteceram ali. A cidade certamente ficou pequena naquele dia, tamanha a grandeza daquela gig.

Ao receber o convite de COVER BAIXO para escrever sobre esse show, novamente aquelas imagens da cidade me ocorreram, e outra vez aquele som de baixo, certeiro e arrojado do Luizão Maia explodiu em minha memória musical. Que delícia de convite, que prazer desenterrar meu kit Elis-Luizão!

Mas o peso da responsabilidade de escrever sobre esse momento bateu pesado também, e mesmo só tendo elogios e orgulho de tal obra prima, quem sou eu para tecer algumas linhas sobre o que aconteceu no Festival de Montreux em 1979, quando entraram no palco Cesar Camargo Mariano (teclados), Helio Delmiro (guitarra), Paulinho Braga (bateria), Chico Batera (percussão), e Luizão Maia, o pai do groove brasileiro no baixo? O que se fez ali foi escrever a história da música brasileira.
Para falar sobre Elis Regina e o Montreux Jazz Festival, resolvi então co-criar este texto, pois acredito que o maior conhecimento está na comunidade, na construção da informação compartilhada, colaborada.

A primeira conversa que tive foi com meu amigo Lucas Fernandes, baixista de Brasília. Perguntei se ele curtia esse álbum, ao que me respondeu: “Claro! Já tirei várias coisas dali. É a Bíblia!” A resposta dele foi para mim a confirmação de que estava indo pelo caminho certo.

Lucas ainda contribuiu com uma reflexão sobre a sonoridade de Luizão, que em uma época de transição entre os instrumentos acústicos e elétricos, apostou na sonoridade do baixo elétrico e deu uma nova cara para o baixo brasileiro, acrescentando elementos da percussão e do violão de 7 cordas àquele “novo” instrumento.
No “Elis Regina em Montreux” esse desenvolvimento da linguagem do Luizão chegou ao ápice. Logo na primeira música, “Cobra Criada”, de João Bosco e Paulo Emilio, todos esses elementos aparecem na linha do Luizão. Após uma belíssima introdução de piano de Cesar Camargo, a banda prepara o terreno para Elis entrar em cena. Luizão Maia é sólido e certeiro na linha de baixo.

Rosa Passos disse em entrevista que Elis era visceral, e foi assim mesmo que a Pimentinha atacou, depois de deixar a banda swingar por quatro minutos, tempo em que Luizão destilou suas linhas de baixo bem elaboradas.

Espetáculo e Gravação

O show aconteceu no ano de 1979. Em 82, foi lançado o LP “Live in Montreux”. O respectivo CD foi lançado mais tarde, inicialmente com apenas nove faixas, e relançado em 2001, trazendo novas e inéditas faixas, incluindo a jam session com ninguém menos que Hermeto Pascoal ao piano. Eles interpretaram juntos “Corcovado”, “Garota de Ipanema” e “Asa Branca”.

Existem diversas histórias sobre as apresentações de Elis e sua gig em Montreux. Em princípio, sabe-se que devido à grande procura por ingressos, foram realizados dois shows, um à tarde, e um à noite. Sabe-se também que Elis não gostou da sonoridade do show e não autorizou o lançamento do álbum ao vivo. Somente depois da morte da cantora, descobriu-se que a apresentação da tarde também havia sido gravada e, para sorte dos fãs de boa música, a Warner Music re-editou o “Live in Montreux” com as duas performances. Hoje, graças ao advento das mídias sociais e da web, é possível ver e ouvir esse show na íntegra, e a pesquisa vale muito a pena.

Mais uma citação do Lucas Fernandes: “Live At Montreux” é uma bíblia do baixo elétrico brasileiro, um material para estudo de uma vida inteira, com fraseados, ritmos, timbres e dinâmicas fantásticas por parte do Luizão!

Mais um amigo que convidei para a co-criação desse artigo foi o Thiago Alves.Para quem não o conhece, Thiago é um dos músicos mais reconhecidos do cenário jazzístico de São Paulo, tocando baixo elétrico e acústico em diversas casas do circuito jazz da cidade, e um dos maiores pesquisadores que já conheci da sonoridade do Luizão Maia. “A primeira vez que vi esse vídeo fiquei surpreso com o som do Precision.”

Luizão, que tinha uma técnica própria ao tocar baixo, utilizando também a unha em seu pizzicato, alcançou uma sonoridade singular. A faixa “Amor até o fim”, de Gilberto Gil, é uma aula de dinâmica e dá para perceber claramente a influência da linguagem do violão de 7 cordas.

Thiago Alves é bem amigo de Zé Luis Maia, o filho do Luizão, e chama atenção para um detalhe interessante. A base dos músicos que se apresentaram em Montreux é a mesma que havia gravado o álbum de estúdio de Elis, “Essa Mulher” (1979).

Esse era o disco que o próprio Luizão dizia ser seu favorito em termos de sonoridade e também das linhas de baixo. “Essa Mulher” foi o disco de que ele mais gostou, em termos de resultado. Para o Festival na Suíça, Luizão utilizou o mesmo instrumento, seu inseparável Fender Precision. Para conhecer o trabalho de Thiago Alves clique aqui.

“Na Baixa do Sapateiro”, de Ary Barroso, ganhou uma versão lenta e muito bonita, com uma interpretação vocal de Elis que foi ovacionada pelo público presente, e como disse muito bem Thiago Alves, “que dificuldade swingar naquele andamento”. Só mesmo um gênio como Luizão!

Teria muito ainda para falar sobre Elis Regina em Montreux. Tudo é inspirador: os teclados de Cesar Mariano, bateria e percussão, a guitarra de Helio Delmiro, o poderoso vocal de Elis, e claro, “Luisón à la basse”, como foi carinhosamente apresentado em francês pela cantora.

Diego Sobral, aluno e grande amigo, professor de baixo do Conservatório Cora Coralina, em Uberlândia, fez a transcrição da linha de baixo da maravilhosa faixa “Cai Dentro”, música de Baden Powell. Se você aprender essa linha de baixo, vai melhorar muito sua condução no samba, aprendendo com o mestre.

Diego destaca que as linhas de baixo de Luizão Maia eram mais elaboradas, harmônica e ritmicamente, pois ele conseguia reproduzir no baixo as células rítmicas do surdo, ou colar com o bumbo, tocando de forma percussiva, além da já citada sonoridade peculiar, alcançada utilizando a unha para executar o pizzicato.

A seguir, você encontra a partitura com a transcrição da linha de baixo da música “Cai dentro” (Live at Montreaux Jazz Festival 1982) realizada pelo Luizão Maia logo após a introdução, embalando a interpretação belíssima de Elis Regina.

(Transcrição: Diego Sobral)

Esse artigo foi publicado, originalmente, na Revista Cover Baixo n. 1 e então aqui re-editado. Para ler gratuitamente a revista acesse:

http://www.revistacoverbaixo.com.br

Pianista, compositor, atua como professor e palestrante em instituições, festivais de música pelo Brasil e cursos de pós-graduação. Turi é Coordenador Pedagógico do Terra da Música e professor de alguns cursos online. É autor de métodos em livros e DVD. Em 2012, seu CD autoral “Interferências” foi publicado no Japão. Seu segundo CD faz uma releitura moderna de algumas composições do sambista Noel Rosa.

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