Breve ensaio sobre a história do Blues

Breve ensaio sobre a história do Blues

Nascido como forma de expressão de um povo oprimido nos campos de algodão do Sul dos Estados Unidos, o Blues eram “cantos de lamento” dos negros que para lá eram levados como escravos. Tais cantos, no entanto, viriam a se tornar um estilo musical cuja influência é marcante na história da música a partir do século XX. Quer saber então um pouco mais sobre a história do Blues e seus principais representantes? Confira este ensaio que o Terra da Música oferece para vocês!

(Para a leitura deste texto, sugiro como trilha sonora: Robert Jonhson – The Complete Recordings)

“O blues é o lamento dos oprimidos, o grito de independência, a paixão dos lascivos, a raiva dos frustrados e a gargalhada do fatalista. É a agonia da indecisão, o desespero dos desempregados, a angústia dos destituídos e o humor seco do cínico.” Paul Oliver

O Blues é muito mais que um simples estilo musical, é um estilo de vida. A válvula de escape de um povo tirado a força de seu lar, oprimido, escravizado, tratado como uma categoria inferior de ser humano. O Blues surgiu quando o primeiro escravo negro pisou na América do Norte. O sofrimento a ele infligido e a saudade de sua terra natal o fizeram rememorar suas antigas tradições, e ele cantou. Cantou para exorcizar seus demônios, para invocar seus deuses, para curar as feridas da alma, para lembrar de onde veio e honrar suas raízes. Sua realidade agora era a lavoura de algodão, trabalho duro sob um sol castigante e o mínimo de condições para sua subsistência. O que ele podia fazer para suportar a rotina era cantar. Por meio dos hollers (cantos de lamento) ele extravasava seus sentimentos e, ao mesmo tempo, comunicava-se com seus irmãos, como ecos da Mãe África no sul dos Estados Unidos da América.

Além de sua liberdade, outras coisas lhe foram tiradas. Era proibido o uso de instrumentos musicais por medo, por parte dos senhores, de serem utilizados como meio de comunicação para organizar revoltas. Mas, usando de sua criatividade, improvisou e criou seus próprios instrumentos. Uma tábua de lavar roupa se transformava numa percussão, enquanto uma caixa vazia de charutos recebia uma estaca de madeira e um fio de arame e se transformava numa guitarra arcaica. Logo seus raros momentos de prazer se tornavam verdadeiras festas.

Breve história do blues. Campos de algodão

Campos de algodão: berço do Blues.

No início do século XX ocorreria algo que seria um marco no Blues. Conta a história que um compositor chamado W. C. Handy, ao aguardar um trem na cidade de Tutwiler, Mississippi, ouviu um negro dedilhando um velho violão e utilizando um canivete para fazer o efeito de slide, escorregando-o pelas cordas. Aquilo o chamou tanto a atenção que compôs uma música se valendo daquela essência. Surgia então o primeiro Blues registrado, Memphis Blues, datado de 1912. Essa composição marcou a chegada do Blues, essa música marginalizada, restrita a negros, ao mainstream da época. Dois anos depois Handy registrou o clássico St. Louis Blues, que obteve grande sucesso e gera releituras até hoje.

Breve história do blues. WC Handy

W. C. Handy: autor do primeiro Blues registrado, Memphis Blues.

Já na década de 1920, com a migração dos negros do sul para o norte dos Estados Unidos, essa cultura vai sendo cada vez mais difundida, e outro acontecimento importante é a gravação de Crazy Blues, pela cantora Mamie Smith. Foi o primeiro registro fonográfico de um Blues. Aos poucos o espírito musical negro se impregnava na sociedade branca e puritana da América. Os negros se encontravam em galpões, muitas vezes precários, para tocar, cantar, dançar e beber (bebidas clandestinas, em face a lei seca) em festas que varavam a madrugada até o nascer do sol. Essas casas eram chamadas jook joints. Como curiosidade, o termo deu origem ao nome da famosa jukebox, aquela máquina que nós, saudosistas, tanto amamos.

Breve história do blues. Robert Johnson

Robert Johnson: responsável por criar a estrutura do Blues.

Nos anos 30 acontece um raro fenômeno, como a passagem de um cometa ou um eclipse que ocorre a cada 100 anos. Seu nome: Robert Johnson. Rapaz tímido, acanhado, tentava, sem sucesso, tocar sua gaita harmônica em meio aos músicos mais experientes. Reza a lenda que, numa certa noite, ele foi a uma encruzilhada e invocou o demônio. Este lhe perguntou o que queria e a resposta foi: ser o melhor músico de Blues do mundo. O demônio então pegou seu violão, afinou-o e concedeu seu desejo em troca de sua alma.

Verdade ou não, o fato é que Robert Johnson revolucionou o Blues ao padronizá-lo. Apenas três acordes e doze compassos foram necessários para criar a estrutura imortalizada e que é sinônimo do próprio Blues até hoje.

Após algumas semanas, Johnson voltou às jooks que frequentava e demonstrou uma habilidade nunca antes vista em se tocar violão. Sua fama logo se alastrou e ele foi convidado para gravar suas músicas. Duas sessões de gravação, em um quarto de um hotel barato, nos renderam 29 músicas que mudaram a história do Blues. Espero que as estejam ouvindo agora e sentindo a atmosfera mística e melancólica da época.

Nos anos 40, uma pesquisa encomendada pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, realizada por Alan Lomax, buscou catalogar as manifestações culturais folclóricas no país. Em uma lavoura de algodão nos arredores de Clarksdale, Mississippi, ele encontrara um jovem de vinte e poucos anos que não tinha violão nem sapatos, mas que fora indicado por Son House, músico já conhecido, como alguém que poderia interessá-lo. Tratava-se de McKinley Morganfield, eternamente conhecido pelo apelido: Muddy Waters.

Breve história do blues - Muddy Waters

Muddy Waters: expandiu os horizontes do Blues.

Ao ouvir a gravação de Lomax, Muddy se ouviu de fato pela primeira vez. Pouco tempo depois, deixou o Clarskdale rumo a Chicago, na esperança de conseguir ganhar a vida com sua música. Depois de um início sofrido, ele conseguiu conquistar seu espaço e fez história ao lado de músicos como Little Walter, Howlin’Wolf, Wilie Dixon e Chuck Berry. O Blues, até poucos anos antes, totalmente rural, acabara de carimbar seu passaporte de entrada nas grandes cidades americanas.

Com o advento da invenção da guitarra elétrica, o Blues foi amplificado, valvulado e aos poucos distorcido. O que era exclusivamente negro ganhou admiradores brancos e essa miscigenação começou a produzir frutos. De sua união com dois outros ritmos, o Country e o Gospel, nasceu seu filho rebelde: o Rock’n’Roll, na década de 50. Desde então, sua popularidade só aumentou ganhando o mundo. O Blues viajou para a Inglaterra e influenciou diretamente na formulação musical das maiores bandas que já existiram: The Rolling Stones, The Beatles, Led Zeppelin, The Who, Pink Floyd (sim, Pink Floyd era uma banda de blues em seu início).

A partir de então, diversos outros músicos e bandas mantiveram a essência do Blues e o modificaram criando uma infinidade de estilos musicais, dentre os quais posso citar: Eric Clapton (Clapton is God); Jimi Hendrix, que revolucionou a forma de se tocar guitarra; Black Sabbath, que acelerou, distorceu e deu ao Blues uma ambientação mais sombria, criando assim o Heavy Metal; Stevie Ray Vaughan, que deu notoriedade ao Texas Blues, uma forma diferente do Blues de Chicago e do Mississippi; entre tantos outros. Sua popularidade só aumentou e sua influência pode ser notada até os dias de hoje nos mais diversos estilos musicais.

O Blues é um sobrevivente, um herói, um resistente que passou pela escravidão, pela segregação e pelo preconceito, mas que venceu e se consolidou na história da música popular a nível mundial. A riqueza da cultura africana vive em cada escala pentatônica, em cada voz rouca cortando o ar até chegar afiada como uma navalha em nossos ouvidos, em cada compasso composto que parece ditar o ritmo das batidas de nosso coração. A emoção que ele nos desperta, o sentimento que aflora em cada nota, a dor que o autor sentiu ao escrever cada verso, tudo é visceral no Blues. Ele nos entristece quando estamos alegres e nos alegra quando estamos tristes. Entre o sofrimento pelo trabalho duro, a falta de perspectiva na vida, os amores não correspondidos, gosto da definição de Willie Brown, no filme Crossroads, sobre o Blues: “o Blues é um homem bom sentindo-se mal por causa da mulher que um dia amou.”

Referência:

MUGGIATI, Roberto. Blues – da Lama a Fama. Ed. 34. 1995.

Licenciado em música, especializado em Artes na Educação e cursando o mestrado em Ensino na Educação Básica pela UFES, Fabrício é professor, guitarrista freelance e fundador da banda de blues/rock Bad Guys, que gravou seu primeiro CD autoral em 2014.

Deixe uma resposta