Carolina Cardoso de Menezes: a pianista que encantou Mário de Andrade

Carolina Cardoso de Menezes: a pianista que encantou Mário de Andrade

Carolina Cardoso de Menezes (1916-1999) foi uma pianista e compositora brasileira, de fundamental importância para a construção da história e identidade musicais de nosso país. Neste artigo, Andressa Zoi Nathanailidis nos leva a conhecer um pouco da vida e obra dessa grande pianista.

Sábado, 2 de dezembro de 1939. A movimentação era grande, nas imediações da Escola Nacional de Música (atual Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ).  O público se apressava para garantir um bom assento no interior do salão Leopoldo Miguez.  Estava para começar o “Festival Nazareth”, evento organizado pela Associação dos Artistas Brasilienses, em homenagem ao compositor Ernesto Júlio Nazareth, então, recém-falecido.

O silêncio respeitoso da plateia se fez presente ao longo de toda a conferência de abertura, proferida pelo folclorista e professor da Universidade do Distrito Federal (atual UFRJ), Brasílio Itiberê. Estavam presentes estudantes e personalidades ligadas à cultura nacional.

Depois de aproximadamente duas horas dedicadas à reflexão sobre a vida e obra  do “pai do tango brasileiro”, muitos aplausos e novos anseios. A expectativa agora era pela seção de concertos, dedicada à memória do compositor Nazareth. Dentre os músicos que estavam para se apresentar, destacavam-se o Conjunto Dante Santoro; além dos pianistas Mário Azevedo, Henrique Vogeler e a jovem Carolina Cardoso de Menezes.

Ernesto Nazareth jovem.

O compositor Ernesto Nazareth, do qual Carolina seria intérprete.

Em meio a tantas autoridades e promessas artísticas masculinas, foi Carolina quem despertou a atenção de todos. De estatura pequena e delicada, a instrumentista subiu ao palco para interpretar os tangos Chave de Ouro e Turuná, missão que realizou com êxito, obtendo, assim, máximo reconhecimento à época. Sobre a performance de Carolina, escreveu Mário de Andrade:  “Foi ela a grande nota pianística do festival executando (…) com uma graça, uma naturalidade, uma untuosidade sonora e uma riqueza de acentos de deliciosíssimo caráter.  Ela era a verdadeira tradição”.

Nascia ali um dos grandes nomes da música popular. Alguém que ajudou a construir a história musical brasileira, mas que, infelizmente, ainda é pouco lembrada, seja em âmbito acadêmico, ou fora dele.

Mário de Andrade.

O intelectual Mário de Andrade teceu elogios à jovem pianista.

 

Carolina Cardoso de Menezes veio ao mundo no dia 27 de maio de 1916.  Carioca, a menina descendia de uma família em que a tradição pianística vigorava. Os pais, Osvaldo Cardoso de Menezes e Dona Sinhá eram habilidosos pianistas; assim como também eram Antônio Frederico Cardoso de Menezes e Sousa e Judite Ribas, seus avós.

Cresceu em um lar “de piano aberto”, onde a música era respiração e estímulo ao cotidiano. Teve as primeiras lições do instrumento em casa, com os próprios pais. Ao completar 13 anos, passou a conviver com outros professores. Estudou com Zaíra Braga, Gabriel de Almeida, Paulino Chaves e Chiquinha Gonzaga. Não tardou muito para que decidisse, também, fazer da música sua profissão. Em 1930, formou-se em Teoria Musical e Solfejo, pelo Instituto Nacional de Música (INM), dedicando-se posteriormente às lições de harmonia, ministradas por Newton Pádua.

Nos palcos, Carolina destacava-se a cada apresentação, cativando o público com demonstrações de esmero e presteza.  Seu apelido? Sinhazinha, vindo do nome de sua mãe. Quais especialidades tinha? Os ritmos brasileiros. Foi por meio deles que Carolina se consagrou na história da música nacional. Sinhazinha, como era conhecida, tinha uma desenvoltura admirável ao executar ritmos como o Samba, Choro, Foxtrote e Baião. Era, de fato, uma artista em total completude: atuou como solista, correpetidora, intérprete e compositora.

Testemunha do desenvolvimento da indústria fonográfica em nosso país, Carolina fez parte da “era de ouro” do rádio no Brasil, tendo trabalhado em diversas emissoras cariocas, como Philips, Mayrink Veiga, Tupy e Rádio Nacional.  Esteve ao lado de cantores famosos, dentre eles Carmen Miranda, Silvio Caldas e Elisinha Coelho. Estabeleceu parcerias musicais de destaque, como o duo com o violinista Fafá Lemos, que mais tarde deu origem ao disco Fafá & Carolina – Fafá Lemos e Carolina Cardoso de Menezes (ouça uma faixa do disco ao lado). O álbum – fruto de uma gravação mais recente, realizada em 1989 – teve à época plena aceitação da crítica especializada, tornando Fafá e Carolina artistas ainda mais conhecidos em meio ao cenário musical da época.

Em se tratando de gravações, Carolina participou da elaboração de mais de cinquenta discos. Gravou composições de Nazareth, Almirante, Ary Barroso, Nonô e Chiquinha Gonzaga; também gravou composições de sua própria autoria, como, por exemplo, Brasil Rock (escrita em 1956 e gravada no ano seguinte), obra precursora do gênero, tão conhecido em tempos atuais (ouça abaixo).

Carolina surpreendia a todos, pela habilidade de criação e execução de suas músicas. Tinha mãos pequenas e, apesar de ter estudado música por muitos anos, geralmente tocava de ouvido.

A pianista que se tornou um “monstro” do erudito-popular no Brasil, sendo até hoje considerada uma das herdeiras dos chamados “pianeiros” do século XIX, dedicou-se ao piano até o último sopro de vida. Em 1997, quando já estava com 81 anos, Carolina Cardoso de Menezes gravou o LP Preludiando, que saiu pelo selo Accoustic. O disco contava com a gravação de clássicos do choro, composições de Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Zequinha de Abreu, entre outros.

Suas duas últimas apresentações ocorreram em 1999, no Rio de Janeiro. Carolina participou de um recital na Sala Cecília Meireles, cujo objetivo seria angariar fundos para a Rádio MEC. No mês de outubro, Carolina Cardoso de Menezes se apresentou pela última vez, quando esteve na Sala Funarte, integrando um recital da pianista Maria Teresa Madeira. À ocasião, executou alguns de seus sucessos, como Relembrando Nazareth, Preludiando (ambos de sua autoria) e Tico-Tico no Fubá (Zequinha de Abreu). Ouça ao lado a gravação de Relembrando Nazareth.

Com a mesma delicadeza que manteve seus dias no mundo, Carolina se foi, vítima de um câncer de fígado, sobre o qual nem ela mesma sabia. Era dia de festa, 31 de dezembro de 1999, às 8h30. A cidade se preparava para receber o ano novo, quando Carolina, para sempre, adormeceu.

Professora da Universidade Vila Velha- UVV/ES, onde ministra disciplinas relacionadas à literatura e produção de gêneros textuais, tem atuado também como pesquisadora, seguindo a vertente “Música, Comunicação e Sociedade”. Andressa é Doutora em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo, onde também cursou mestrado e especialização na referida área. Graduada em Jornalismo (UVV/ES), Direito (UVV/ES) e Música (Faculdade de Música do Espírito Santo) é autora dos livros “Achilles Vivacqua : vida e obra” (2008) e “ζωή [vida]” ( 2014).

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