Cinco questões sobre as origens do jazz – Parte 2

Cinco questões sobre as origens do jazz – Parte 2

O que era o jazz quando surgiu? Quem “inventou” o jazz?

Na primeira parte deste artigo dedicado às “Cinco questões sobre as origens do jazz” discutimos sobre algumas questões: Quem compôs o primeiro jazz a ser gravado? O jazz foi bem aceito pela sociedade em seu início? Qual é a origem da palavra “jazz”? Nesta segunda parte nos colocamos mais duas questões:

O que era o jazz quando surgiu?

O jazz era, no início, uma miscelânea de diversas culturas e influências. Os dois grandes pilares sobre os quais o jazz se fundamenta são o Blues e o Ragtime.

Escutando o próprio Livery Stable Blues (veja a primeira parte do artigo) podemos notar, tanto do ponto de vista técnico como cultural, a presença de algumas características comuns também a outras composições jazzísticas do mesmo período. Por exemplo, a estrutura da música construída em torno de três acordes fundamentais e em 12 compassos. Praticamente todo blues que vinha de uma tradição afro-americana possuía essa forma. A batida de habanera revela a influência da música caribenha naquela produzida em Nova Orleans. Christian Blauvelt aponta para o fato de que “várias balsas chegavam em Nova Orleans vindas de Havana todos os dias no início do século XX”.

Já a abundância de instrumentos de sopro nessas primeiras jazz bands reflete a influência da música marcial, muito popular em Nova Orleans durante e depois da Guerra Civil Americana (1861-1865). O piano, por sua vez, vem de uma tradição do ragtime, estilo musical do qual o jazz é diretamente proveniente.

Além disso, você deve ter notado que aos 1:20 de Livery Stable Blues aparecem sons que se assemelham aos produzidos por alguns animais. Isso é intencional. Mais precisamente, o clarinete imita um galo, a corneta o relincho de um cavalo e, o trombone, uma vaca. Isso remete ao ambiente de trabalho rural vivido por muitos negros de então, principalmente da região sul dos Estados Unidos.


Outro aspecto importante de ser lembrado é o “tom humorístico” presente no jazz em seus primórdios, e que tem relação com a música de menestrel, bastante popular – talvez a mais popular – nos Estados Unidos entre 1840 e 1920. Basicamente, essa música satirizava a segregação racial no país, com músicos brancos, mas com os rostos pintados de preto, representando o que para eles era ser negro.

Mas como lembra Blauvelt: “Enquanto a música de menestrel envolvia brancos parodiando a ideia que eles tinham dos afro-americanos, muitos outros músicos brancos, como aqueles da Original Dixieland Jass Band, escolhiam copiar as tradições musicais afro-americanas”.

Portanto, tendo-se em mente todos esses dados, o que se pode inferir é que, apesar de toda a mistura, o jazz é, em sua base, fundamentalmente afro-americano. O fato de um grupo formado apenas por músicos brancos ter sido o primeiro a gravar um jazz, apenas deixa escancarada a problemática questão racial presente na sociedade norte-americana – e também na de vários outros países do mundo inteiro.

Para fechar – mas de modo algum esgotar – essa discussão sobre “o que era o jazz quando surgiu”, é interessante um fato que também aponta para a mistura presente no gênero, e que explica a atenção que seria dada ao virtuosismo técnico posteriormente pelos músicos. Em Nova Orleans, entre 1817 e 1843, muitos escravos negros – alguns da África, outros da região do Caribe – reuniam-se aos domingos na New Orleans Congo Square para tocarem música, momento em que acontecia também um intercâmbio entre suas culturas.

Na mesma época e lugar, existiam também os “Creoles”, que eram mestiços de ascendência branca e negra, mas que se identificavam com a cultura europeia, e não com a africana. No entanto, em 1890, um conjunto de leis – que ficariam conhecidas como “leis de Jim Crow” – estabeleceria que a partir de então os Creoles seriam considerados “negros”, sendo permitido a eles apenas tocar com músicos da “mesma etnia”.

Com isso, os creoles, que tinham uma formação musical “erudita”, trouxeram para a “música negra” a fluência e habilidades técnicas típicas de sua formação.

Quem “inventou” o jazz?

Após tudo o que foi dito acima, uma pergunta desse tipo pode parecer absurda – ou até mesmo ridícula. Mas houve, sim, quem proclamasse para si o título de “inventor do jazz”. O próprio líder da Original Dixieland Jass Band, Nick LaRocca, foi um deles. Só que junto a essa afirmação vieram outras de cunho extremamente racista, dizendo que foram os brancos que tinham inventado o jazz, essas coisas todas. Nascido em 1889, filho de imigrantes sicilianos, Nick tocava trompete e corneta. Escreveu diversas composições, a mais famosa das quais é Tiger Rag. A música foi interpretada por vários artistas, entre eles Louis Armstrong, Charlie Parker, Benny Goodman, Frank Sinatra, Duke Ellington, Kid Ory, Bix Beiderbecke, Les Paul, Art Tatum, The Mills Brothers, Bob Crosby entre outros.

Outro que tomou para si o título foi o pianista Jelly Roll Morton (1890-1941). Este, embora se saiba que não tenha sido o “inventor do jazz”, leva consigo um outro mérito não menos importante: foi o primeiro a escrever jazz em partitura. Sua composição Jelly Roll Blues foi a primeira composição de jazz a ser oficialmente publicada em 1915.

Jelly Roll Morton, um dos primeiros e mais característicos personagens da história do jazz, chegou a produzir cartões de visita com escritas como “O maior compositor de temas hot do mundo”. Nascido Ferdinand Joseph LaMothe, aproximadamente entre 1885 e 1890, Jelly Roll (nome com o qual passou a ser conhecido) era um crioulo orgulhoso de sua remota descendência francesa, esnobe e um pouco racista, como relata o historiador Alan Lomax. Aos dezessete anos tocava piano nos bordéis de Storyville, um bairro promíscuo de New Orleans, e por isso logo mandado embora da própria casa. Tido, por muitos, como um charlatão, fanfarrão, em 1917 estava em Los Angeles tocando piano, administrando jogos do bicho e negócios duvidosos.

Um homem entrou em nosso armazém. Com um lenço vermelho no pescoço e um enorme chapéu de cowboy na cabeça, começou a gritar: “Ouçam todos, eu sou Jelly Roll Morton de New Orleans, o criador do jazz”. Falou sem parar por uma ora contando o quanto ele fosse bom pianista e tal. Depois sentou ao piano, e mostrou que era melhor ainda de quanto tivesse dito.
(Lester Melrose, editor musical em Chicago).

Editor chefe do Terra da Música, Elvio é formando em jornalismo. Estudou piano e flauta na Faculdade de Música do ES, dedicando-se ao piano erudito e popular. Sua vida se resume em encontrar tempo para se dedicar a todas as suas paixões: música, cinema, idiomas, literatura, jornalismo, psicanálise, e muitas outras.

Deixe uma resposta