Claude Debussy: “Não, eu não sou um prodígio”

Claude Debussy: “Não, eu não sou um prodígio”

Há 107 anos, o compositor francês Claude Debussy recebia o correspondente em Paris do jornal The New York Times. Mais precisamente, no dia 17 de junho de 1910. A entrevista surpreende por sua atualidade: são abordados temas como gêneros musicais, gosto do grande público, ensino de música, fama… O jornalista começa descrevendo a casa do compositor: “A grande porta-janela estava aberta, e sentia-se vindo de seu velho jardim o perfume das folhas mortas reanimadas por uma chuva ligeira. Nenhum ruído entrava pela janela, nenhuma pista de vida urbana, embora a casa se encontrasse a dois passos da avenida Bois de Boulogne, onde, naquele momento, centenas de automóveis corriam furiosamente.”

Debussy mantém um discurso que poderia ser proferido nos dias de hoje. O que não causa surpresa, vindo de um artista tão visionário quanto ele. Confira abaixo!*

*O presente texto introdutório foi traduzido e adaptado conforme o publicado na versão online do jornal Le Parisien no dia 15/07/2015.

 

O segredo da inspiração

Claude Debussy: Eu não sei como eu componho. No piano? Não, eu não posso afirmar isso. Eu não sei como explicar de maneira exata. Eu sempre acreditei que nós músicos somos como instrumentos, instrumentos bem complexos, é verdade, mas, de todo modo, instrumentos que simplesmente reproduzem harmonias inerentes a nós. Eu tenho a convicção de que nenhum compositor sabe realmente como ele faz. […]

Claro, é necessário que antes de tudo eu encontre um tema. Depois, eu me concentro nesse tema, digamos, não de modo musical, mas de modo normal, como qualquer pessoa que meditasse sobre um tema. Então, pouco a pouco, após essas ideias serem fermentadas durante algum tempo, a música começa a se concentrar em torno dela, e eu me sinto obrigado a experimentar as harmonias que me perseguem. Depois disso tudo, eu trabalho sem descanso.

Tem dias e semanas, e mesmo meses, durante os quais eu fico completamente desprovido de ideias. Apesar de todos os meus esforços, eu não consigo produzir nada que seja apropriado. Dizem que certos compositores conseguem escrever regularmente uma certa quantidade de música por dia, mas eu confesso que esse método de trabalho eu não consigo entender. […]

Claude Debussy

 

Debussy terminara um cigarro; começava a acender um terceiro. Ele aparenta ser um homem extremamente sensível e desprovido de qualquer afetação. Bastante reticente na presença de estrangeiros, ele é deliciosamente tagarela na companhia de seus amigos. Seu singelo terno azul, impecável como seu local de trabalho, e com um corte perfeito, pareceu-me característico do homem – um homem que detesta fantasias e fanfreluches, sempre cuidadoso da própria aparência.

Claude Debussy: Não me peça para falar de mim mesmo… peço-lhe que não o faça. Não, eu não era uma criança prodígio. Eu acho que quando alguns músicos falam de sua juventude, eles têm uma tendência a embelezar suas lembranças, e eles dirão que fizeram isso ou aquilo aos 10 ou 11 anos. Não, eu confesso, eu não escrevi uma ópera aos três anos e meio de idade, e não dirigi uma orquestra quando tinha sete anos.

Debussy tem olhos que brilham sardonicamente. É curioso que este aspecto jocoso não se tenha manifestado antes, pois Debussy possui um senso de humor que ilumina esplendidamente a conversa.

Um rebelde no Conservatório

Claude Debussy: Como muitos outros jovens, eu fui enviado ao Conservatório de Paris e, desde o início, fiquei insatisfeito. Explicaram-me que um tal acorde devia ser desse jeito e que um outro acorde devia ser daquele jeito; que este era um caso de harmonia perfeita e que aquele não era. Naquela época, como hoje, eu acreditava e ainda acredito que a harmonia perfeita não existe. Por muito tempo eu não quis estudar coisas que, para mim, eram bobas. Mas então eu me dei conta de que era necessário pelo menos fingir que as estudava, para passar nas provas. Então eu estudei, mas eu sempre criei meus próprios métodos, e quando nos era ensinado alguma coisa, eu sempre decidia por mim mesmo se aquilo era verdadeiro ou falso. […] Enfim, quando chegou a hora de deixar o conservatório, recebi o Prix de Rome (o maior prêmio ao qual um estudante de música possa aspirar). E então fui para Roma. No começo, eu ficava horrivelmente entediado; mas aos poucos eu comecei a trabalhar e, no fim das contas, eu me virei muito bem. Depois disso voltei para a França e não sabia muito o que fazer até o momento em que descobri Pelléas et Mélisande (peça de teatro a partir da qual Debussy escreveu uma ópera, finalizada em 1902). […]

Neste momento, eu preparo duas óperas baseadas em contos de Poe (o escritor norte-americano Edgar Allan Poe, 1809-1849), La chute de la maison Usher e Le puits et le pendule. Quando eu as finalizarei? Absolutamente, não sei. Eu trabalho nelas há bastante tempo, e receio que ainda seja necessário trabalhar por mais algum tempo. Como eu já lhe disse, eu não posso me forçar a trabalhar. É como plantar legumes ou qualquer outra planta. Colocando uma grande quantidade de produtos químicos na terra, talvez fosse possível cultivar salada durante o inverno, mas ela não seria uma verdadeira salada e não teria o gosto de uma verdadeira salada! Da mesma forma, a música nascida sob condições artificiais não seria verdadeira – seria um produto de uma estufa. […]

A fama, um flagelo

Claude Debussy: O sucesso e o fracasso são mais ou menos a mesma coisa. Claro, nós temos a impressão de ficarmos contentes quando nosso trabalho é admirado – mas isso é realmente verdadeiro? Eu não sei explicar o que penso, mas, para mim, a música é como um ser humano. Todos sabemos que quando sentimos um amor profundo por uma pessoa, se pudermos nos isolar com ela, não pediríamos mais nada além disso. Quanto mais a pessoa ou a obra de arte é amada, mais ela pode ser roubada. Portanto, para mim, a fama não tem nenhuma importância, eu não a aprecio.”

Debussy falava sem afetação: seu desejo de permanecer de fora da arena pública parecia inteiramente natural. Agora, quando Debussy fala, não é porque ele queira simplesmente conversar, mas porque suas ideias, de certa maneira, o comandam. É como se seu cérebro ditasse o funcionamento de sua boca. Pois ele mesmo preferiria não dizer nada.

A música não tem gênero

Claude Debussy: Sim, eu sempre amei a música. Quais gêneros de música? Todos! Você toca no assunto que para mim é o maior erro atualmente, o desejo de colocar em categorias fixas todo tipo de música. Como você quer que isso seja feito? Você fala de música alemã, de música italiana, de música impressionista, e de outros tipos de música. Qual é a diferença? O que eu quero dizer é que, se você fala de uma obra de arte, você não pode decretar que ela pertença a uma categoria particular. É uma obra de arte, isso é suficiente. Não há uma diferença fundamental entre, por exemplo, a música francesa e a música italiana. […]

O dever do músico: ajudar o público a esquecer seus problemas

Claude Debussy: A música italiana é banal? Não sei. Você diz que ela se parece com uma bela mulher, mas que ela não tem nenhum intelecto. Bem, a beleza é importante, até mesmo muito importante, e não é todo mundo que a possui. Veja quantas pessoas são transportadas pela música italiana: ela toca a parte mais íntima de seus corações. A beleza em uma mulher – como na música – é algo essencial, até mesmo bastante essencial.

Mais uma vez Debussy ficou em silêncio para pegar outro cigarro. Ele parecia refletir sobre o que tinha acabado de dizer. De repente, ele se recostou em sua poltrona e fez alguns círculos de fumaça. Depois ele se ajeitou.

Claude Debussy: Não me fale de melhorar o gosto do público. Essa é a maior conversa fiada que se possa espalhar. Como você o faria? Por quais meios? Reflita um pouco sobre a composição do grande público. Quantas pessoas em um auditório têm algum entendimento sobre música? Um número infinitesimal! […]

A maior parte entre elas está cansada depois de um dia de trabalho ou de ociosidade. E você quer que essas pessoas se interessem realmente por alguma coisa nova ou séria? Então, o que você pede é completamente impossível. Não, a única coisa que um compositor pode fazer pelo público – e unicamente por uma parte ínfima do público – é de fazê-lo sair, momentaneamente, de suas preocupações cotidianas. A música é capaz, mas por um momento bem curto, de agir de modo a fazer com que quem ouça esqueça de suas operações financeiras e atribulações sociais. É necessário que o músico se contente com isso.

Debussy recostado em sua poltrona com um cigarro. Um registro da imagem descrita pelo jornalista.

Editor chefe do Terra da Música, Elvio é formando em jornalismo. Estudou piano e flauta na Faculdade de Música do ES, dedicando-se ao piano erudito e popular. Sua vida se resume em encontrar tempo para se dedicar a todas as suas paixões: música, cinema, idiomas, literatura, jornalismo, psicanálise, e muitas outras.

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