Creed Taylor e a explosão da Bossa Nova no mercado americano – parte 2

Creed Taylor e a explosão da Bossa Nova no mercado americano – parte 2

Sem perder tempo, em março de 1963, nos estúdios da A&R, em Nova York, encontravam-se a postos Stan Getz no sax tenor, João Gilberto no vocal e com o violão em punho, Astrud Gilberto no vocal, Tom Jobim ao piano, Tommy Williams no baixo e Milton Banana na bateria, todos para gravar o disco “Getz/Gilberto”, no que viria a ser uma explosão de sucesso com as faixas: 1) The Girl From Ipanema; 2) Doralice; 3) Pra Machucar Meu Coração; 4) Desafinado (Off Key); 5) Corcovado (Quiet Nights of Quiet Stars); 6) Só Danço Samba; 7) O Grande Amor; 8) Vivo Sonhando (Dreamer). Aos mais atentos, pode-se verificar na contracapa as palavras: “Produced by Creed Taylor”.

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Não satisfeito com o imenso sucesso alcançado, além de receber longos elogios da crítica, no ano seguinte Taylor lança o disco “Getz/Gilberto #2 – Recorded Live at Carnegie Hall”. O espetáculo foi dividido em duas partes, com Stan Getz e João Gilberto dialogando em cinco faixas. Na primeira parte ou The Stan Getz Side, encontramos Getz no sax tenor, Gary Burton no vibrafone, Eugene Cherico no contrabaixo e Joe Hunt na bateria. A turma americana executou 4 das 10 músicas escaladas para a apresentação: 1) Grandfather’s Waltz; 2) Tonight I Shall Sleep; 3) Stan’s Blues; 4) Here’s That Rainy Day. Na segunda parte do show ou The João Gilberto Side, entra João Gilberto com o seu indefectível violão, o contrabaixista Keeter Beets e o baterista Helcio Milito. As músicas executadas foram: 1) Samba da Minha Terra; 2) Rosa Morena; 3) Um Abraço no Bonfá; 4) Bim Bom; 5) Meditation; 6) O Pato. Também na contracapa lemos o nome do responsável por tudo isso, Creed Taylor. Ah! Também consta o engenheiro de som Rudy Van Gelder.

Capa do disco “Jazz Samba” – Stan Getz e Charlie Byrd (gravado em 1962)

A Bossa Nova entrava em definitivo no mercado americano. E já nesta época muitos músicos brasileiros se mudam para Nova York e passam a residir na rua 46 em Manhattan, apelidada por Creed Taylor de Little Brazil. O fascínio pelas canções tropicais começou a mudar de status pela figura representativa de Tom Jobim, pois até então o Brasil era uma espécie de caricatura vinculada à Carmen Miranda, divulgada comicamente pela MGM.
Após transferir-se para A&M Records e trabalhar com Wes Montgomery e George Benson, Taylor funda a CTI (Creed Taylor Inc.) em 1970. Com uma carreira sólida e um currículo invejável, Creed alcança o equilíbrio entre o êxito comercial e as conquistas artísticas. A CTI passa a ser reconhecida pela sua sofisticação, arranjos inconfundíveis, grupo sólido de artistas (Freddie Hubbard, Stanley Turrentine, George Benson, Chet Baker, Gerry Mulligan, Nina Simone, Paul Desmond, Art Farmer, Herbie Hancock e Ron Carter estão entre alguns de naipe superior), distintos e criativos designers e fotógrafos, em destaque Pete Turner, além de voltar a trabalhar com Rudy Van Gelder.

Capa do disco “Jazz Samba Encore” – Stan Getz e Luiz Bonfá (gravado em 1963)

Detalhe, dentro da CTI havia um arranjador, o qual Creed Taylor não largava mão de forma alguma, Eumir Deodato. Indagado sobre o brasileiro, Taylor respondia: “Só posso dizer o óbvio, e o óbvio é que ele tinha um conceito absolutamente genial. Sabia transpor uma enorme vitalidade para as coisas que fazia. Era também muito cordial e inteligente. Ele sentia a música, fosse um som brasileiro, rock ou outra coisa qualquer. Não estava limitado a nenhuma forma particular de fazer as coisas”.

É por essas e outras que Taylor fazia do risco uma oportunidade de lançamento com vigor e qualidade. Não é preciso dizer que Taylor ganhou inúmeros prêmios ao longo de sua carreira, mas para ficarmos somente na década de 60 e com o Grammy Awards, teríamos de mencionar “Focus”, Stan Getz (61); “Desafinado”, Stan Getz e Charlie Byrd (62); “Conversations with Myself”, Bill Evans (63); “The Girl from Ipanema”, Stan Getz e João Gilberto (64); e “Willow Weep for Me”, Wes Montgomery (69). Consequências de um olhar a longa distância.

(na foto inicial: Tião Neto, Tom Jobim, Stan Getz, João Gilberto e Milton Banana).

Thiago Goulart é Professor de Literatura e estudante de jornalismo (Puc-SP), com ênfase em Jornalismo Cultural pela Unicamp.

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