Creed Taylor e a explosão da Bossa Nova no mercado americano – parte 1

Creed Taylor e a explosão da Bossa Nova no mercado americano – parte 1

É bem possível que nas minuciosas fichas técnicas dos principais discos de jazz, você tenha se deparado com o nome Creed Taylor ou algo como “Produced by Creed Taylor”. Um jazzófilo empertigado exige que se conste em suas coleções, referências das obras-primas que estão em seu poder: nome do artista e do álbum, óbvio, referências ao diretor de arte, fotógrafo, ano de lançamento, gravadora e, claro quem o produziu. Para dizer o mínimo. Pois bem, o referido produtor musical é uma das personalidades da esfera jazzística que concretizou um sem número de magnum opus dos artífices do improviso. Soube montar equipes de trabalho de primeira ordem, além de colaborar, com argúcia e sensibilidade, ao que parece ser secundário num projeto de lançamento de um disco, mas não o é: o design de parte significativa dos álbuns, fornecendo-lhes o charme e o equilíbrio constatáveis nas capas e contracapas dos encartes das gravadoras e selos em que trabalhou ou fundou.

Creed Taylor iniciou sua carreira musical por meio do trompete. Chegou a fazer algumas apresentações, mas não alçou grandes voos. Interessou-se mesmo pela vertente comercial do jazz, passando por várias gravadoras e selos. Iniciou sua trajetória na Bethlehem Records. Soube de alguns conflitos e da saída de músicos como Stan Getz, Charles Mingus, Hank Jones e Billy Taylor do Jazz at the Philharmonic (JATP) de Norman Granz, aliás, outra grande figura empresarial do ramo. É nesse momento que Taylor os convida para integrar o time da gravadora Bethlehem, travando importantes contatos com os músicos da cena jazzística de então.

Capa do disco “Getz/Gilberto” (gravado em 1963)

Pouco tempo depois de transferir-se para a ABC-Paramount, Creed funda o seu próprio selo, a Impulse!, subsidiária da ABC, em 1960. Contratou, por exemplo, John Coltrane, cujos arranjos eram realizados por Eric Dolphy. A Impulse! ganhou notoriedade no mercado pela excelente criatividade e imagem de marketing, logotipo, além das capas dos discos. Outra chave importante para o desenvolvimento da Impulse! foi a parceria com o grande engenheiro de som Rudy Van Gelder, outro vulto do mundo do jazz e que pode ser encontrado nos miolos ou contracapas de encartes de grandes discos. O corpo de músicos que Creed dispunha estava preparado para realizar algumas das maiores gravações nos estúdios de Van Gelder. Sem contar que Taylor trabalhou com dois excelentes arranjadores da época: Claus Ogerman e Don Sebesky. Para se ter uma ideia sobre a relevância dos arranjos na produção de seus álbuns, Taylor dizia, “são eles quem pintam o quadro”, ou seja, grande parte da sofisticação, qualidade e sucesso dos discos editados para o mercado dependia em grande parte dos arranjos.

Talvez, o período de maior sucesso trilhado por Creed Taylor tenha sido na Verve Records. Em determinada altura, Norman Granz vendeu a Verve para a MGM que não dispunha de ninguém para geri-la. Creed além de estar na linha de frente da Verve, revolucionou não só as gravações que produziu como virou e revirou o mercado fonográfico norte-americano ao fundir o Jazz com a Bossa Nova, ou melhor, foi ele o responsável por introduzir a Bossa Nova nos Estados Unidos, colocando a música brasileira de fato onde devia estar: na playlist das rádios, tevês, revistas e estúdios.

Isso aconteceu por meio do guitarrista Charlie Byrd, conhecido por sua proximidade com a Bossa Nova. Em viagem pelo Brasil, Byrd teve a oportunidade de encontrar-se com Antonio Carlos Jobim que, por sua vez, lhe repassou algumas de suas pepitas e filigranas em verso responsáveis por invadir o mercado americano e entrar de vez no mainstream musical. Ao regressar para os Estados Unidos, Byrd mostrou-as a Taylor que vislumbrou uma excelente oportunidade que tinha em mãos, devido ao requinte do cancioneiro jobiniano. Estatelado com o poder sedutor das canções, Taylor imediatamente chamou um engenheiro de som e o saxofonista Stan Getz que ouvia a canção de uma só vez e rapidamente a gravava num take.

(na foto inicial,Stan Getz, Milton Banana, Tom Jobim, Creed Taylor, Joāo Gilberto e Astrud Gilberto).
 

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Thiago Goulart é Professor de Literatura e estudante de jornalismo (Puc-SP), com ênfase em Jornalismo Cultural pela Unicamp.

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