Estudar música nos EUA: uma experiência no Kentucky

Estudar música nos EUA: uma experiência no Kentucky

Veja a experiência do contrabaixista Andrey Junca, que foi estudar contrabaixo no Kentucky e que, após dois mestrados, acaba de ganhar uma bolsa de estudo para o doutorado.

Conheci Andrey Junca na Faculdade de Música do ES, eu dava aula de prática de conjunto, improvisação e piano popular; ele, bem jovem, trabalhava no marketing da instituição. Andrey tocava baixo elétrico por hobby, mas quando viu a nossa prática de conjunto de Música Popular não resistiu! Fez a prova, entrou no curso e decidiu estudar música de verdade. A partir daquele momento, o caminho da música se abriu para ele, não sem esforços e dedicação, obviamente. Tudo com muita dedicação. No ano passado nos re-encontramos nos EUA, tocamos juntos, fiquei muito feliz em ver os passos de gigante desse jovem e promissor contrabaixista.

Andrey compartilha para os alunos e leitores do Terra da Música um pouco de sua experiência.

Turi Collura: Andrey, conte-nos um pouco sobre sua experiência de estudar música nos EUA. O que ela tem lhe proporcionado, tanto pessoalmente como profissionalmente?

Andrey Junca: Morar em outro país é muito bom, principalmente se você se identifica com sua cultura. Se você vem de cabeça aberta pra viver coisas novas e diferentes, você cresce muito. Mas não foi tão fácil sair de Vitória para morar no interior do Kentucky (Estado da região sudeste dos Estados Unidos).

Campbellsville é uma cidade pequena, onde praticamente não rola nenhuma gig. Às vezes pintava um casamento ou uma festa particular. Mas era raro. Você basicamente toca nas bandas e orquestras da universidade (e a universidade te mantém bem ocupado com esses grupos, o que é uma vantagem). Apesar de poucas oportunidades profissionais, eu tive bastante tempo para me desenvolver no estudo do contrabaixo erudito. Ficava bastante tempo em casa estudando repertório e técnica. Afinal, eu basicamente larguei o elétrico quando vim pra cá e adotei o acústico como o meu grande desafio para o futuro.

E com essas mudanças, veio outro choque cultural: sair do pop e ir para o erudito. Durante dois anos, eu fiquei em imersão no erudito e tocava na banda de Jazz da universidade pra não ficar tão afastado do estilo. No fim do meu primeiro mestrado eu fiz audição na Universidade de Louisville e passei para um outro mestrado, desta vez em Jazz.

Turi: Como foi essa mudança?

Andrey: Estudar música jazz e morar em Louisville tem sido uma experiência fantástica. As pessoas são bem receptivas e respeitam a profissão do músico. Existe um carinho e admiração com os profissionais da arte. Além disso, você está no país onde o Jazz surgiu e foi se desenvolvendo. As coisas acontecem aqui e a troca de informação não pára nunca. É um frenesi musical. Aproveito que estou por aqui e acompanho o cenário musical pra entender como o meio profissional se organiza e quais são as práticas. Acho que o Brasil não está muito distante do que ocorre aqui. Em algumas capitais como Rio e São Paulo, as práticas são parecidas. Acho que aqui rola mais respeito pela profissão.

Estudar música nos EUA - Andrey Junca, contrabaixo

Turi: Você disse que durante o tempo em que esteve em Campbellsville, se dedicou bastante ao contrabaixo erudito. Já que seu segundo um mestrado é em Jazz, na sua opinião como fica a relação entre o estudo do Jazz e do erudito?

Andrey: Apesar de estar num mestrado de jazz, ainda estudo repertório e técnica de baixo clássico. Acho que os diferentes “mundos” se complementam. Aliás, tem muito baixista de jazz famoso que tem formação no clássico. Algumas pessoas se surpreendem quando pesquisam a fundo sobre isso.
Turi: Poderia falar um pouco sobre a Universidade de Louisville?

Estudar música nos EUA - Andrey Junca, contrabaixo

Andrey: Fundada em 3 de abril de 1798, a Universidade de Louisville é um local impressionante. A estrutura da universidade é fantástica. O campus onde estudo tem 12 faculdades e atende a 22.529 mil estudantes. Aqui eles fomentam diariamente o envolvimento dos universitários e funcionários em iniciativas de responsabilidade social e respeito às minorias e diferenças de credo, cultura e raça. Todo o lixo produzido é direcionado à coleta seletiva e reciclagem, alguns prédios funcionam à base de energia solar e algumas faculdades desenvolvem projetos em comunidades carentes.

A escola de música tem um impacto direto na sociedade desenvolvendo projetos de musicalização infanto-juvenil e comunidades carentes e oferecendo concertos de uma qualidade espetacular, todos eles gratuitos e abertos à sociedade. Além disso, a universidade é casa da Jazz Week, semana de Jazz que traz convidados como Dave Brubeck, Elvin Jones e Christian McBride, e também promove concurso de big bands de escolas de ensino médio; Em novembro ocorre o New Music Festival, evento que reúne compositores e promove a performance de música orquestral contemporânea. Este ano tivemos dois compositores de peso na universidade: a finlandesa Kaija Saariaho e o polonês Krzysztof Penderecki.

A universidade também conta com um concurso de composições chamado The Grawemeyer Award. Dentre os vencedores, temos grandes nomes da música contemporânea como Pierre Boulez, John Adams e Witold Lutoslawski. Em junho/julho ocorre o famoso Acampamento de Verão do Jamey Aebersold, evento que reúne uma gama de estudantes e entusiastas do jazz de todo o mundo para tocar e atender a palestras com profissionais do estilo. É sempre uma grande festa e uma boa oportunidade de conhecer músicos sensacionais. Em 2015 tivemos a presença de Chris Potter, Adam Nussbaum, Rufus Reid, Eric Alexander, John Goldsby. Quem curte jazz, vale a pena o investimento.

A estrutura é bem organizada e oferece alojamento perto da universidade e “meal plan” incluindo as 3 refeições diárias. Recomendo!

refeitorio da escola de musica de Louisville

Turi: Estudar música nos EUA é o sonho de muitos estudantes de música brasileiros. Para eles, quais seriam as dicas e os conselhos que você daria?

Andrey: A primeira coisa que você deve considerar é o idioma e as provas que validarão a sua proficiência. Você precisa ser experiente o suficiente para conseguir escrever um trabalho, uma pesquisa, fazer uma prova, uma tese, dissertação… E isso não envolve só estudar muito para se dar bem na prova do TOEFL. Tem que ter tesão pelo idioma e se aprofundar na semântica, na fluência, na musicalidade da língua. Sem isso, nem dê o próximo passo porque você vai sofrer ou perder o seu tempo e gastar o tempo dos outros.

A segunda questão engloba três coisas: o seu orçamento, a escola em que você estudará e as condições que eles oferecerão para você fazer o seu curso. Tem bolsa? A bolsa cobre o que: estudo? Cobre parcial ou totalmente? A universidade paga um salário aos assistentes acadêmicos? Para algumas universidades, as bolsas de 100% são baseadas no valor que eles te premiam em dinheiro e não no valor real do que se paga no semestre. Nem sempre esse valor cobre todo o seu gasto com os estudos. Se não cobrir, você precisa arcar com essa despesa. Tem lugar que você precisa pesquisar bastante e conversar com mais de um funcionário/estudante da instituição para conseguir todas essas informações. E nem sempre eles te passam a informação completa, ou te informam apenas as coisas boas. As ruins eles omitem. E isso rola porque educação aqui é um comércio como qualquer outro. Portanto, todas as universidades são pagas.

A terceira questão é o professor que estará no teu percurso durante o curso que você for fazer. Você passará alguns anos com essa pessoa, que estará ali pra te fazer crescer tecnicamente no seu instrumento e no repertório. É basicamente um casamento. Se não tiver química, caia fora, pesquise outros profissionais.

O quarto ponto a considerar envolve o local, a cultura e os choques culturais que você enfrentará. Você aguenta ficar longe da sua terra? Você estará longe da sua família e não estará presente para compartilhar coisas boas e ruins. Os seus amigos e familiares nem sempre entenderão a sua ausência e se afastarão naturalmente. E, mesmo que você queira, a sua rotina pode não te permitir interagir com sua família, mesmo em momentos de necessidade. Com tudo isso acontecendo, você terá que lidar com uma nova rotina, com novas pessoas te cercando, um novo idioma, comida diferente, hábitos diferentes. Isso pode parecer fascinante no início, mas uma hora a lua-de-mel acaba e você precisa de ter uma boa base psicológica para aguentar. É por isso que todas as universidades oferecem serviço gratuito de psicólogos aos alunos. A rotina é tensa.

A quinta e última coisa a considerar é saber o que você quer fazer com esse diploma e se ele pode ser validado no Brasil. Algumas diferenças no padrão de educação brasileiro não são compatíveis com os internacionais. E isso pode te dar muita dor de cabeça, considerando que o seu investimento de tempo e dinheiro para estudar música fora do seu país podem não trazer  benefício para a sua carreira do ponto de vista acadêmico, caso o seu diploma não for reconhecido no Brasil.

Estudar música online - jam session na noite de louisville

Jam session em Louisville com Andrey Junca e Turi Collura

Turi: Enquanto estávamos aqui finalizando a edição da entrevista, foi confirmada uma notícia, vai ser o Andrey a comunicá-la:

Andrey: Recebi a carta oficial da University of Illinois! Fui aceito no programa de Doutorado!! Serei bolsista 100% e trabalharei como assistente do Professor de baixo Lawrence Gray. O cara é o contrabaixista de Jack DeJohnette, toca pra caramba!!!

Turi: Essa é uma grande notícia!! Parabéns Andrey!! Desejo muito sucesso em tua carreira profissional!! Vamos estudar música! Estudar música! Estudar música! Até nosso próximo encontro e nossa próxima gig!! Grande abraço!!

Andrey: Obrigado, até! Um grande abraço!

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