Afinal, quem foi a cantora que inspirou o filme Marguerite?

Afinal, quem foi a cantora que inspirou o filme Marguerite?

Sublimemente desafinada. Divinamente desafinada. Brutalmente desafinada. É desta forma que dois personagens do filme Marguerite definem a voz da personagem principal, uma mulher da alta sociedade que sonha em ser uma diva da ópera. Mas não trata-se apenas de ficção, todo o filme é baseado em uma história real.

Quem foi, então, essa mulher que, de tão ruim, era capaz de lotar salas de concerto quando se apresentava? E que lição podemos tirar da história de vida dela? Com vocês, a pior cantora de ópera do mundo!

No último dia 23 de junho, estreou no Brasil o filme Marguerite, baseado e inspirado livremente na história real da cantora norte-americana Florence Foster Jenkins. Dirigido por Xavier Giannoli e protagonizado por Catherine Frot, o longa, ambientado na Paris do início dos anos 1920, apresenta em cinco capítulos a vida da personagem Marguerite Dumont, mulher pertencente à alta sociedade parisiense.

Insegura, ingênua e solitária, Marguerite sofre com a falta de amor sobretudo de seu marido, e, talvez como uma forma de conseguir ser notada por ele, fantasia a ideia de se tornar uma grande diva da ópera, sua grande paixão. Encontra, assim, na música, uma forma de alívio para seus anseios.

Até aí tudo bem. É bastante comum seres humanos descobrirem na arte uma forma de vazão para todo tipo de sentimento. Acontece que, no caso de Marguerite, havia (ouvia-se) um pequeno problema: a entonação de sua voz era… digamos assim… não exatamente o que se pode chamar de bem afinada.

E a cena inicial do filme já nos dá uma ideia disso, quando Marguerite, durante um recital beneficente realizado em sua mansão para arrecadar fundos para órfãos da Primeira Guerra Mundial, canta a famosa ária da Rainha da Noite, escrita por Wolfgang Amadeus Mozart para a ópera A Flauta Mágica. O resultado é cômico – mas também triste.

Aliás, todo o filme é um misto de situações cômicas, dramáticas e até trágicas. É impossível não rir ao ver Catherine Frot interpretando as cenas em que Marguerite canta, da mesma forma como é impossível não se comover ao perceber como toda aquela gente que a rodeava se aproveitava da posição social da cantora, omitindo-lhe a verdade sobre sua voz e encorajando-a a continuar com algo que a expunha ao ridículo. (Ao lado, o cartaz do filme. No topo, pode-se ler: “tampe os ouvidos e abra o coração”.)

Cena particularmente engraçada é a que um personagem chamado Kyrill (Aubert Fenoy), um vanguardista iconoclasta, maliciosamente convida Marguerite para cantar a Marselhesa em um cabaré repleto de conservadores da elite francesa. Assim, a voz desafinada acaba sendo utilizada como um elemento de transgressão aos valores estabelecidos. De chorar de rir.

Mas, como foi dito anteriormente, trata-se de uma adaptação da história de um personagem real. Então, afinal, quem foi Florence Foster Jenkins, a cantora que inspirou o filme Marguerite?

Realidade e ficção

Exceto pela nacionalidade – Florence era na verdade norte-americana, e não francesa – e alguns outros detalhes, muita coisa na vida de Marguerite Dumont é semelhante à da personagem que inspirou sua criação. Nascida a 19 de julho de 1868, Florence, assim como Marguerite, era dona de uma imensa fortuna herdada de seu pai.

Também como no filme, apresentava-se a princípio em recitais realizados para círculos fechados da alta sociedade, sendo encorajada por pessoas que a faziam acreditar ser uma grande artista e que deveria realizar uma apresentação pública. E assim foi: em 1944, o Carnegie Hall viu subir ao palco Florence Foster Jenkins, a pior cantora de ópera do mundo. Que tal ouvir um pouco?

Mas apesar de sua música jamais ter sido levada a sério, uma coisa era inegável: do ponto de vista de arrecadação de fundos para caridade, era um sucesso. Como afirma a jornalista e atriz Clemency Burton-Hill em seu artigo intitulado “Por que Florence Foster Jenkins foi a pior cantora do mundo?”, publicado na BBC no dia 6 de maio:

“Enquanto suas apresentações públicas levantavam milhões de dólares (nos termos de hoje) para caridade, a imagem que ficou foi aquela da alta sociedade às gargalhadas, segurando o riso, tentando não rolar pelos corredores morrendo de rir, ao mesmo tempo em que a inundavam com aplausos estrondosos.”

Amor pela música

Passada a primeira reação ao ouvir alguma gravação de Florence e, sobretudo, conhecendo um pouco da vida da cantora, é possível extrair uma espécie de moral de toda essa história. Ela era desafinada, sim, mas ninguém pode acusá-la de falta de dedicação e amor pela música. Clemency Burton-Hill, em seu mesmo artigo citado acima, diz:

“A história de Florence levanta questões familiares a qualquer um que já trabalhou duro em algo que realmente ama. Alguém que já tentou se imaginar tornando-se algo, qualquer coisa, independentemente do nível de seu talento.”

E é exatamente isso o que o espectador sente ao assistir Marguerite.

Editor chefe do Terra da Música, Elvio é formando em jornalismo. Estudou piano e flauta na Faculdade de Música do ES, dedicando-se ao piano erudito e popular. Sua vida se resume em encontrar tempo para se dedicar a todas as suas paixões: música, cinema, idiomas, literatura, jornalismo, psicanálise, e muitas outras.

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