O desenvolvimento das habilidades na música e na Improvisação

O desenvolvimento das habilidades na música e na Improvisação

 

A arte da improvisação musical está presente em muitas culturas do mundo. Em nossos dias, a improvisação faz parte de várias manifestações da cultura musical popular, seja brasileira ou internacional (do samba à bossa nova, do choro ao blues, do rock ao pop), assim como do jazz, que é, provavelmente, o estilo que, entre todos, mais desenvolveu uma linguagem sofisticada. Trataremos aqui apenas da forma mais comum de improvisação, a melódica, isto é, a da criação de novas melodias sobre canções e temas pré-existentes. Não falaremos de “improvisação total”, que é aquela em que são criados, extemporaneamente e contemporaneamente, todos os elementos que constituem uma música (sua estrutura formal, seus caminhos harmônicos, sua melodia, suas características rítmicas etc).

A improvisação como composição extemporânea
A improvisação pode ser definida como a arte de criar algo no momento da execução, portanto, em tempo limitado, com material também limitado. Esse processo implica a necessidade de tomar decisões certas para criar algo que funcione naquele instante. De certa forma, a improvisação pode ser definida como uma composição extemporânea. Em comparação à composição musical escrita, a composição extemporânea é limitada, por exemplo, no que diz respeito à forma: quase sempre, a estrutura harmônica sobre a qual se improvisa é fornecida e o número dos compassos da composição é pré-estabelecido, assim como são pré-estabelecidos os acordes e suas relações tonais.

O que o improvisador deve fazer, nesses casos, é desenvolver a capacidade de analisar os dados do momento e criar algo que respeite o material fornecido (acordes, estilo, tempo, material temático etc).

O desenvolvimento das habilidades musicais na improvisação
Quais são as habilidades e as competências que o músico deve desenvolver para improvisar? Podemos pensar em três diferentes áreas de habilidades musicais a serem desenvolvidas, como mostra a figura a seguir.

Segundo esse modelo, o conjunto das habilidades musicais pode ser representado como o resultado da interação de três áreas de competências que interagem entre si durante a performance musical e durante o estudo do músico.

O triângulo e as competências/habilidades do músico
Em um vértice do triângulo, encontra-se a área que chamo de mente lógica. Nela, residem os conhecimentos lógico-racionais, que se referem a:

  1. A gramática musical e as regras compositivas (conhecimentos da linguagem harmônica, das tonalidades, do aspecto rítmico, da fraseologia e da forma musical, dos aspectos estéticos característicos de um determinado gênero musical);
  2. As capacidades de conhecimento/re-conhecimento auditivo (conhecimento e reconhecimento auditivo de intervalos, acordes, pulsação e elementos rítmicos, contexto harmônico etc);
  3. O conhecimento da antologia, das gravações, dos intérpretes, dos estilos etc. Por exemplo, servirá ao músico saber reconhecer a forma da música que está tocando (se é AABA), onde começam e terminam as frases do tema.

Será útil conhecer a tonalidade da música, seu campo harmônico, entender a função dos acordes, as escalas para improvisar, ter um ouvido bem desenvolvido etc. Evoluindo na espiral, o improvisador terá grandes benefícios em conhecer, também, a gramática construtivista da composição melódico/harmônica.

Em outro vértice do triângulo, há o desenvolvimento das habilidades fisico-motoras: treinamento de técnica, escalas, arpejos etc… mas também o estudo de frases, de padrões rítmico-melódicos que ficam guardados na mente e no corpo do músico, prontos para serem usados “na hora certa”.

No último vértice do triângulo, encontramos o que chamo de mente criativa. Nela residem as capacidades de decisões de caráter estético/artístico, a capacidade de interagir “em tempo real” com os estímulos externos (vindos de outros músicos, do público, do contexto em geral). Na educação musical, essa talvez seja a área que mais necessita de estudos e aprofundamentos.

A seguir, veja uma entrevista em que falo do “triângulo das habilidades”:

Muito além do estudo da improvisação
Talvez a ideia do triângulo e de suas áreas possa ser um instrumento útil não apenas na área da improvisação. Pensando, por exemplo, em um pianista intérprete de música da tradição europeia, podemos concluir que as primeiras duas áreas demandam mais atenção do que a terceira. Ao trabalharmos com um grupo de crianças, no entanto, a área da criatividade poderia ter um espaço maior. Fica o convite ao uso dessa ferramenta, por exemplo, no momento de entender onde nos situamos em nosso desenvolvimento, quais habilidades dominamos mais e quais áreas precisamos desenvolver. Podemos analisar se temos, por exemplo, um suficiente preparo teórico e está faltando o lado da criatividade (“conheço toda a teoria, mas meus improvisos não saem”) ou se, ao contrário, temos muita criatividade e bom ouvido, mas não sabemos “que escala utilizar”, ou não temos técnica para nossas realizações etc. Vale sempre a pena lembrar: procuremos sempre fontes de informação confiáveis e consistentes. Procuremos sempre bons professores e referências seguras para orientar nossa caminhada.

Já pensou “no seu caso”?
A ferramenta do “triângulo das habilidades e competências” do músico lhe permite ter uma noção mais precisa de quais “ingredientes” você precisa colocar no seu dia-a-dia de desenvolvimento musical. De forma geral, precisamos desenvolver um trabalho multifacetado: trabalhar o lado técnico; conhecer a gramática musical, treinar nosso ouvido… e estimular nosso lado criativo. Em meus cursos de improvisação busco levar o aluno ao desenvolvimento das várias áreas.

Até a próxima!

 

Pianista, compositor, atua como professor e palestrante em instituições, festivais de música pelo Brasil e cursos de pós-graduação. Turi é Coordenador Pedagógico do Terra da Música e professor de alguns cursos online. É autor de métodos em livros e DVD. Em 2012, seu CD autoral “Interferências” foi publicado no Japão. Seu segundo CD faz uma releitura moderna de algumas composições do sambista Noel Rosa.

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