João Donato: a síntese pan-americana

João Donato: a síntese pan-americana

João Donato, compositor, arranjador, instrumentista e cantor, nasceu na cidade de Rio Branco, capital do Acre, à 17 de agosto de 1934. Ao longo da carreira, produziu uma sólida obra, consolidando-se como importante pilar da música brasileira. Quer saber um pouco mais sobre ele? Então confira a resenha feita pelo Thiago Goulart, que define o compositor como “uma síntese da música pan-americana”.

Ao completar 80 anos em 2014 e 65 profissionalmente, João Donato de Oliveira Neto lançou dois discos ao vivo no Festival Jazzmania, em Ipanema, Rio de Janeiro. Acordeonista no princípio da carreira, estreando no grupo de Altamiro Carrilho e Seu Regional (1949), Donato construiu seu repertório por meio de inúmeros intercâmbios musicais, sendo muito influenciado pela Bossa Nova gilbertiana, pelo Jazz norte-americano – período, aliás, em que residiu nos Estados Unidos nos anos 60 quase integralmente – e a música caribenha, cujo contato com músicos cubanos fornecera-lhe o ingrediente típico: o swing tão sambante dos países próximos ao trópico de Câncer.

Além das três Américas, deve-se dar destaque às harmonias de teor eminentemente nativo, silvícola, selvagem, das águas da Amazônia, ou seja, do índio. O pianista acreano também recupera e resgata as suas origens, e, por conseguinte, as nossas origens, as quais provêm do sangue indígena e também negro. Assim, estão presentes em seus dois álbuns (Live Jazz in Rio Vol. 1 – O Couro Tá Comendo! e Live Jazz in Rio Vol. 2 – O Bicho Tá Pegando!) alguns títulos os quais revelam elementos da verdadeira genealogia identitária brasileira: Bananeira, Gaiolas Abertas, O Sapo, Emoriô, Suco de Maracujá, Rio Branco e Amazonas.

João Donato foi parceiro de inúmeros letristas. Aliás, como curiosidade, muitas de suas músicas quando lançadas em discos não haviam letra. É o caso de Bananeira, chamada anteriormente de Villa Grazia; O Sapo, de The Frog; A Paz, de Leila IV, dentre outras. A respeito disso, Donato foi “forçado” por questões mercadológicas a procurar parceiros craques em versos. Muitas rádios não executavam suas músicas instrumentais, tão somente se houvesse letra. Contudo, o pianista não se deu mal. Nos discos em questão há letristas, além de músicos altamente gabaritados que, na verdade, complementaram o que já estava consumado: Dorival Caymmi, Antonio Carlos Jobim, Martinho da Vila, João Gilberto, Paulo Moura, Nelson Motta, Gilberto Gil e por aí vai…

Duas pérolas do jazz são significativas no Volume 1 do álbum: Paradise Found, de Shorty Rogers, que já fazia parte do repertório de Donato; e Song for my Father, do hard bopper Horace Silver, um standart jazzístico executado e gravado de maneira inédita. Por todas as experiências vividas e compartilhadas, é sintomática essa mistura (leia-se, mistura organizada) de ritmos, parceiros, músicos, formações de banda, influências e criações na vida João Donato, cuja obra tem se tornado uma síntese da música pan-americana.

Thiago Goulart é Professor de Literatura e estudante de jornalismo (Puc-SP), com ênfase em Jornalismo Cultural pela Unicamp.

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