A primeira impressão é a que fica? Não foi o caso com Coltrane

A primeira impressão é a que fica? Não foi o caso com Coltrane

A “primeira vez”: nesse artigo Thiago Goulart conta a sua primeira impressão ao ouvir o saxofonista e compositor de jazz norte-americano John Coltrane, considerado pela crítica o maior sax tenor de jazz e um dos maiores jazzistas e compositores deste gênero de todos os tempos.

“Escuta. Não fala nada sobre o que escutou. Reescuta. Não diz nada.” Foi o que disse meu pai quando chegou dos Estados Unidos com o disco ‘Lush Life’, de John Coltrane gravado em duas datas – 1957-58 – e lançado em 61. Olhei a capa e vi um sujeito empunhando um sax tenor, nada demais. Desconfiava do que poderia vir pela frente, mas muito aquém do impacto auditivo. Adolescente, havia acabado de chegar da escola, joguei o cd num canto e fui almoçar.

Ao virar o disco, fiz a seguinte leitura: “John Coltrane’s Prestige years began when he joined the Miles Davis Quintet in 1955. During the next few years, when he was either with Davis or the Thelonious Monk Quartet, he functioned as both leader and sideman for this label.”

Até os 30 anos, a carreira de Coltrane não havia deslanchado. Muito consumo de álcool e viciado em heroína, parecia o fim da linha. Somente aparência. Miles Davis o havia chamado para integrar seu quinteto, após saída de Sonny Rollins. Muito bem, eu não sabia de nada disso.

No reverso do álbum havia três pistas, cujos cacos fui juntando. Miles Davis, ok, conhecia, mas não tinha domínio sobre seus músicos e as formações dos quintetos. Prestige Records, ok, já conhecia a gravadora e muitos dos craques que por ali passaram. Monk, o monge que rodopiava ao tocar piano também. Agora, um camarada que havia sido contemplado por Davis e Monk, além de ser um dos líderes e sideman da Prestige Records? Achei estanho.

Ouço ‘Lush Life’ (extensão: 13’51’’). Havia saltado as três primeiras músicas (Like someone in Love; I love you; Trane’s Slo Blue) e nem me comprometi com a última (I hear a Rhapsody). Não gostei. Saxofone agudo demais. Segunda vez. A mesma música. É, até que vai. Muitas notas e desdobramentos. Terceira vez. Ok. Esse camarada tem uns fraseados interessantes. Quarta vez… Veio o estalo.

Faixas do disco:

  • “Like Someone in Love” (Jimmy Van Heusen, Johnny Burke) — 5:00
  • “I Love You” (Cole Porter) — 5:33
  • “Trane’s Slo Blues” (Coltrane) — 6:05
  • “Lush Life” (Billy Strayhorn) — 14:00
  • “I Hear a Rhapsody” (Jack Baker, George Fragos, Dick Gasparre) — 6:01

Músicos:

Faixas de 1 a 3:

  • John Coltrane — tenor saxophone
  • Earl May — bass
  • Art Taylor — drums

As três primeiras faixas são sem um pianista: Red Garland não apareceu para a sessão de gravação.

Faixas 4 e 5

  • John Coltrane — tenor saxophone
  • Red Garland — piano
  • Paul Chambers — bass
  • Donald Byrd — trumpet (track 4)
  • Louis Hayes — drums (track 4)
  • Albert Heath — drums (track 5).

Entendi o sentido e o chamado estilo “sheets of sounds” (lâminas ou lençóis de som) que caracteriza Coltrane. Sua linha melódica é um todo contínuo. Além disso, comprime-se no espaço de um acorde, três ou quatro acordes.

É por isso que as baladas que Coltrane executa são envolventes e altamente líricas. Nessa música de Billy Strayhorn, Coltrane está acompanhado pelo pianista Red Garland, no trompete, Donald Byrd, Paul Chambers no contrabaixo e Louis Haynes na bateria. Garland e Byrd dão os seus recados, mas Coltrane se supera.

Somente com o tempo compreendi a importância desse álbum, porque foi o momento da guinada na vida de Coltrane. Em 58, novamente com Miles, ele participou do talvez maior disco da história do jazz: ‘Kind of Blue’.

O ponto máximo do gênio quase incompreendido foi o disco ‘A Love Supreme’ (1965), em que o próprio Coltrane rememora em poucas palavras o que passou: “no ano de 1957 experimentei, pela graça de Deus, um renascimento espiritual que me levaria a uma vida mais rica, plena e produtiva.”

Definitivamente, Coltrane não foi um ‘coup de foudre’ e muito menos ‘tombé amoureux’ à primeira audição. Demorou 55 minutos e 40 segundos, para se fazer entender. No entanto, apesar das minhas limitações, as indiretas e as frases suspensas como palavras que ficam no ar abriram minha perspectiva sobre a música.

Com Coltrane acontece o seguinte: para um bom entendedor, meia nota basta.

Obrigado pelo presente pai!

Obrigado por ter começado a descontruir minha limitação e ignorância, Coltrane!

Thiago Goulart é Professor de Literatura e estudante de jornalismo (Puc-SP), com ênfase em Jornalismo Cultural pela Unicamp.

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