Keith Jarrett: o pianista gênio com gênio difícil

Keith Jarrett: o pianista gênio com gênio difícil

O pianista de jazz Keith Jarrett está acostumado a “dar escândalos” durante seus concertos. Há pouco tempo aprontou mais uma das suas, dessa vez na Filarmônica de Munique, sábado 16 de julho passado.

Uma máquina fotográfica, um celular que toca, um avião que passa ou uma tosse. Tudo isso incomoda terrivelmente o grande Keith Jarrett, conhecido por suas numerosas saídas improvisas do palco. Grande pianista improvisador, dono de uma técnica brilhante, o artista é esquivo ao público, intolerante com os comportamentos desrespeitosos, a qualquer momento pode parar de tocar e sair definitivamente do palco.

Os contratos que as organizações de concerto devem assinar para poder promover um concerto com Jarrett incluem muitas cláusulas legais complicadas. Entre elas a de que o pianista tem absoluta liberdade de decidir se tocar ou não, naquela noite. Ele tem liberdade de decidir se tocar apenas poucas notas ou se tocar por mais de duas horas. Mas isso parece não afastar os seus fãs. Ao contrário, as salas de concerto estão sempre lotadas, os ingressos esgotados em poucas horas assim que uma nova apresentação dele é anunciada. Aos 71 anos, Keith Jarrett mostra estar cada vez mais em forma. Como acontece com os bons vinhos, o tempo só enriquece a sua música.

Keith Jarrett

Desta vez aconteceu na Alemanha

Seu concerto em Bordeaux em 6 de Julho, aclamado pela crítica, ocorreu sem incidentes. Mas dez dias depois, o público da Filarmônica de Munique não teve a mesma sorte.

Antes de começar o concerto, Jarrett pede à organização para ler uma carta – em alemão e, em seguida, em inglês. Ele pede para o público fazer silêncio, especialmente nos momentos mais líricos; pede para não ser filmado ou fotografado. Celulares e dispositivos eletrônicos devem permanecer desligados.

Depois de uma improvisação sobre Somewhere over the rainbow – umas das suas músicas favoritas nos “bis” de suas apresentações – enquanto era ovacionado e aplaudido de pé pelo público, algumas pessoas tomaram a liberdade de fotografar o pianista com seus celulares. Foi o bastante para que ele pegasse o microfone e se dirigisse a essas pessoas chamando-as de imbecis. Segundo o jornal Abendzeitung, Jarrett perguntou “Eu eu tenho uma pergunta para eles: porque vocês vieram?”. Logo depois disso deixou definitivamente o palco.

Um final de concerto “feio” comentou a Radio Bavaroise, que notou elegantemente, que tudo havia sido feito para que isso não acontecesse: os programas, bilíngues, fornecidos aos espectadores pediam que não fossem feitas fotos, e que fossem evitados “barulhos incômodos, principalmente durante os instantes musicais calmos”. No entanto, sempre há algumas pessoas que não conseguem respeitar a vontade do artista. Felizmente, o episódio das fotos aconteceu ao fim do concerto.

Nos últimos anos, Keith Jarrett veio duas vezes ao Brasil, em ambas as ocasiões se apresentou no Rio e em São Paulo. Isso depois de muitos anos de ausência, devido à falta de condições adequadas no país, segundo o pianista.

Não obstante seus comportamentos excêntricos, excessivos – e, por que não, agressivos – para com o seu público, salas e teatros continuam lotadas, sua música continua brilhante. E o mundo fica aguardando mais uma mágica dele ao piano. Parece que, pelo resultado, vale a pena perdoar o artista.

Quatro discos de Keith Jarrett para ouvir

The Köln Concert

The Koln Concert - Keith Jarrett

Facing you

Facing you

The melody at night with you

The melody at night with you

Standards Vol. 1

Standards vol 1 - Keith Jarrett

Pianista, compositor, atua como professor e palestrante em instituições, festivais de música pelo Brasil e cursos de pós-graduação. Turi é Coordenador Pedagógico do Terra da Música e professor de alguns cursos online. É autor de métodos em livros e DVD. Em 2012, seu CD autoral “Interferências” foi publicado no Japão. Seu segundo CD faz uma releitura moderna de algumas composições do sambista Noel Rosa.

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