“Kind of Blue”: fetiche em torno do maior álbum de jazz

“Kind of Blue”: fetiche em torno do maior álbum de jazz

Especialistas de Jazz definem Kind of Blue como um dos mais importantes discos de Jazz de todos os tempos, não bastasse ser o álbum de Jazz mais vendido de todos os tempos. Para Thiago Goulart, Kind of Blue  <<revela a riqueza de espírito do homem e da mulher contemporâneos em suas virtudes intrínsecas, mesmo que seja tão raro encontrá-las por aí>>.

Muitos casais já se presentearam com o álbum Kind of Blue. Por mais imperceptível que possa ocorrer, parceiros desejam, entre outras coisas, ter a trilha sonora marcante dos momentos casuais e insubstituíveis. A música, nesse caso, é uma das recompensas que os namorados compartilham em segredo.

Amantes presenteiam-se com Kind of Blue. É uma forma elegante, progressista e enigmática de ser. Amigos e parentes também. Donos de vastas coleções e críticos mais rígidos asseveram que Kind of Blue seria o item a ser salvo de um incêndio caso pudessem escolher.

Por que tamanho fetiche e predileção em torno do maior álbum de Jazz lançado por Miles Davis e cia há mais de meio século? Alguns dão razão ao crescimento introspectivo tão importante ao aparato psicológico do homem e da mulher ocidentais nos séculos 20 e 21. Outros sugerem o alto teor de imersão reflexiva que as peças teriam atingido. Há aqueles que confabulam o clima da gravação, realizada em apenas dois dias de primavera em Manhattan, sem nunca ter havido uma segunda tentativa de recriá-lo.

Minha tacada é: Kind of Blue revela a riqueza de espírito do homem e da mulher contemporâneos em suas virtudes intrínsecas, mesmo que seja tão raro encontrá-las por aí. Beleza e inteligência não costumam dormir na mesma cama. Nesse caso, encaixaram-se muito bem.

Algumas notas sobre o disco:

Kind of Blue reuniu sete músicos, agora lendários, no auge de suas carreiras: o saxofonista tenor John Coltrane, o sax alto Julian “Cannonball” Adderley, os pianistas Bill Evans e Wynton Kelly, o baixista Paul Chambers, o baterista Jimmy Cobb e, claro, o trompetista Miles Davis.

Foi o disco que inaugurou, oficialmente, o chamado Jazz Modal. Gravado em apenas duas sessões, superou as expectativas dos próprios músicos. Assim escreve Jimmy Cobb: Sob hipótese alguma podíamos pensar que Kind of Blue se tornasse o que acabou se tornando: um dos mais célebres álbuns da história do gênero. Isso é difícil de acreditar… e mais difícil ainda é acreditar que eu sou o único que restou para contar a história. (do prefácio ao livro “Kind of Blue – a história da obra-prima de Miles Davis” de Ashley Khan).

Kind of Blue

Thiago Goulart é Professor de Literatura e estudante de jornalismo (Puc-SP), com ênfase em Jornalismo Cultural pela Unicamp.

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