Por que a relação entre loucura e genialidade é um mito no mundo da música

Por que a relação entre loucura e genialidade é um mito no mundo da música

(Texto originalmente publicado por Aliette de Laleu para o site France Musique. A tradução aqui presente foi realizada pelo editor do Terra da Música, Elvio Filho.)

Uma frase atribuída a Thomas Edison diz: genialidade é 10% inspiração e 90% transpiração. Neste texto esclarecedor, Aliette de Laleu mostra por que, em se tratando de criação artística, disciplina, trabalho duro e vida social são mais eficientes para a produção de uma obra-prima do que simplesmente uma “mágica inspiração”.

Frequentemente grandes compositores são vistos como loucos, excêntricos, ou mesmo doentes mentais. Porém, existe realmente uma ligação entre criatividade, genialidade e insanidade?

Certos compositores ouviam vozes e melodias vindas de dentro da mente, as quais eles depois transcreviam em pautas de partitura em branco. Schumann, Haydn, Chostakóvitch… Eram eles loucos? Doentes mentais? Seria isso um transtorno ou, ao contrário, uma fonte preciosa de inspiração?

Cientistas e psicólogos debruçaram-se sobre questões a respeito das relações entre criatividade e loucura, para tentar definir em que grau um influencia o outro. A imagem do “criador louco” se desenvolveu ao longo dos tempos para se tornar mais um mito do que uma realidade. Um mito para fantasiar a história da música, mas também para tentar oferecer uma explicação racional à popularidade de tais gênios, ou mesmo à existência de obras-primas.

O que é um gênio?

“Quando se fala de genialidade, com frequência não é algo muito preciso”, analisa Benjamin Frantz, do Laboratoire Adaptations Travail-Individu (Lati). “A genialidade é aquilo que é inabitual, intenso, belo”, continua o engenheiro. De um ponto de vista científico, um gênio é uma pessoa capaz de produzir algo de altamente original. Em um artigo publicado na revista Sciences et Avenir, Dean Keith Simonton, pesquisador na área de psicologia, complementa essa definição acrescentando: “Gênios são aqueles que ‘fazem história’ por sua contribuição em uma área de criação ou de liderança”.

A história da música nos apresenta vários gênios entre os compositores, como Mozart, Bach, Beethoven, Chopin, Wagner, Haydn e muitos outros. Mas esses artistas se tornaram “gênios” com o tempo. Em suas épocas, eles podiam ser conhecidos, até mesmo reconhecidos como compositores talentosos ou músicos virtuosos, mas raramente eram considerados gênios. “O caráter ‘genial’ depende da cultura e da época nas quais o trabalho é produzido”, explica Benjamin Frantz.

Surge então um discernimento e uma distinção importante a se fazer entre a produção e a pessoa que dá origem a ela. Quem é “genial”, a obra ou o artista? “As pessoas muito criativas produzem bastante”, comenta o engenheiro do laboratório de pesquisas, “e elas não fazem apenas coisas geniais”. Afirma, ainda, usando da lógica: em música, quanto mais se compõe, mais chances se têm de escrever uma obra genial.

Antes de ser um gênio, Mozart era um compositor criativo, talentoso, inspirado e, sobretudo, muito produtivo. Entre suas aproximadamente 600 obras, nem todas são percebidas como produto de um gênio, mas é mais fácil evidenciar as peças de maior sucesso e as mais inspiradas, e considerá-las como “geniais”. Nesse sentido, as relações entre quantidade e qualidade são evidentes.

Wolfgang Amadeus Mozart

Wolfgang Amadeus Mozart: antes de gênio, um compositor criativo, talentoso, inspirado e muito produtivo.

Como nasce uma obra-prima?

Permaneçamos no caso de Mozart. A opinião pública de bom grado lhe atribui “rasgos de genialidade”. Basicamente do que se trata? Imagina-se que o compositor, subitamente inspirado, em uma noite bota no papel uma sinfonia. Se de fato esse episódio existiu, não é verdadeiramente um rasgo de genialidade. Pois esta não chega por milagre, é necessário a ela um “período de incubação”.

“Ninguém tem boas ideias estando sozinho. A interação com os outros permite encontrar novas ideias, informações e imagens.”

Este período corresponde ao processo criativo. “Há, primeiramente, uma ideia que se faz necessário deixar amadurecer, é o período de incubação. Depois, a pessoa que cria a submete a um processo de decantação e, quando torna ao trabalho, vê a ideia com mais clareza e produz alguma coisa”, diz o engenheiro Benjamin Frantz. Este período de pausa explica, em parte, um comportamento comum aos compositores: a necessidade de se isolar do mundo para escrever.

De onde surge a desconstrução de outro mito: a solidão dos gênios. “Ninguém tem boas ideias estando sozinho no seu canto”, afirma Benjamin Frantz. Os grandes compositores não viviam afastados da sociedade. Pelo contrário, a maior parte se estabelecia na sociedade como professor, concertista ou mestre de capela… E eles se encontravam entre artistas, escutavam reciprocamente suas músicas ou as de seus predecessores.

Esta interação com os outros lhes permite que se renovem e encontrem novas ideias, informações, imagens… Todo esse processo faz parte do período de incubação. Uma vez esses elementos coletados e acumulados, certos compositores exprimiam então o desejo de se encontrarem a sós para escrever. Ideia que, no imaginário popular, faz com que eles sejam vistos como originais, ou como estando à margem da sociedade.

Por que os compositores não são (assim tão) loucos

“A maior parte dos gênios não sofrem muito de transtornos mentais, porque eles são criadores”, afirma Philippe Brenot, autor do livro A Genialidade e a Loucura na Pintura, na Música e na Literatura, em um vídeo publicado pelo site da revista L’Obs. Para o psiquiatra, os artistas são menos acometidos por neuroses ou doenças mentais, e isso graças à arte que produzem. “O gênio experimenta uma espécie de equilíbrio por conta do seu trabalho de criação. Ele cria uma obra que serve de bloqueio para uma possível doença”, continua Philippe Brenot.

Além disso, o mundo da música parece ser um lugar poupado pelos problemas psicológicos. Certamente, muitos compositores tinham suas excentricidades, como Schoenberg e seu medo do número 13; Gounod com seu misticismo; Erik Satie com seu humor excessivo e absurdo… Mas poucos eram verdadeiramente perturbados, ou loucos. Apenas Robert Schumann apresentava graves transtornos que o obrigaram a passar o fim da vida em um manicômio.

Por que os compositores, em comparação aos pintores ou aos escritores, são mais bem preservados da loucura? “Há na música exigências tão fortes, que é impossível ser completamente louco para compor”, analisa Benjamin Frantz. De fato, conforme cada época, a música estabelece um maior ou menor grau de rigidez em sua forma, que se dá pela duração do tempo, uma harmonia a ser respeitada ou ainda uma linearidade da obra.

Todas essas exigências forçam o compositor a respeitar uma ordem estabelecida para a escrita da música, e a seguir regras próprias da composição, aprendidas naturalmente ou não. A expressão da loucura é controlada por essas regras, mesmo que haja também uma liberdade de criação e que os melhores compositores sempre souberam contornar essas normas.

Erik Satie: excêntrico, porém não louco.

A história guardará na memória esses “rasgos de genialidade” dos compositores à frente de suas épocas. E suas saborosas excentricidades serão tratadas de loucura.

Para ter acesso ao texto original, clique aqui.

Editor chefe do Terra da Música, Elvio é formando em jornalismo. Estudou piano e flauta na Faculdade de Música do ES, dedicando-se ao piano erudito e popular. Sua vida se resume em encontrar tempo para se dedicar a todas as suas paixões: música, cinema, idiomas, literatura, jornalismo, psicanálise, e muitas outras.

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