Das Letras ao Piano: Mário de Andrade, a música e a influência nas produções do nacionalismo musical brasileiro – parte 1

Das Letras ao Piano: Mário de Andrade, a música e a influência nas produções do nacionalismo musical brasileiro – parte 1

Crítico literário, folclorista, poeta, escritor… E, acima de tudo, um apaixonado pela música!

Nascido em 09 de outubro de 1893, Mário Raul Morais de Andrade —  ou apenas Mário de Andrade, como popularmente é conhecido —  iniciou sua trajetória na música de maneira inusitada. Aos dezoito anos, o então aluno do curso de Filosofia e Letras da Escola de Comércio Álvares Penteado, após uma discussão com um professor de Língua Portuguesa, decidira largar tudo para se dedicar a uma antiga vontade: estudar piano.

Incentivado pela mãe, Maria Luísa de Almeida Leite Moraes, e também pela tia e madrinha, Ana Francisca de Almeida Leite Moraes, Mário de Andrade, então, matriculou-se no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo.

O ano era 1911. A vontade de se tornar um virtuose era tão grande que o impulsionava a passar horas a fio debruçado sobre o instrumento. No ano seguinte, recebeu o título de “aluno praticante”, atribuído em função de seu desempenho. Tal título lhe permitiu atuar como uma espécie de monitor do Conservatório, ensinando noções de teoria musical, solfejo e piano.

Em 1913, entretanto, uma tragédia viria a acontecer, transformando os planos de Mário. Seu irmão caçula, Renato, que também estudava piano, sendo um dos mais destacados alunos do Conservatório, falecera de forma brusca: aos 14 anos, após um acidente, durante uma partida de futebol.
Mário ficara extremamente abalado com o fato e adquirira, em função disso, tremores nas mãos—  o que lhe impedira de continuar a ser um aspirante à virtuose. Pouco a pouco, então, passou a se dedicar mais à literatura e ao exercício da crítica cultural.

Quando concluiu o curso, em 1917, foi contratado pelo Conservatório para ocupar o cargo de professor de História da Música. Desde então, tornou-se cada vez mais comprometido com a arte musical.

Através de seus ensaios, estudos críticos sobre a música, sobretudo a música folclórica, consagrou-se ao longo da história, tornando-se um ícone da música brasileira na atualidade.

Enquanto modernista que era, primou pelos padrões de renovação estética, influenciando e integrando diversos compositores ao chamado “nacionalismo musical brasileiro”.

Mário e o Nacionalismo Musical Brasileiro
O movimento surgira em função de uma realidade peculiar, experienciada ainda nos primeiros anos do período republicano brasileiro. Com o advento da industrialização, houve uma tentativa governamental de erradicação da cultura popular. Todo e qualquer elemento populesco que pudesse prejudicar a imagem “moderna” relacionada ao país era prontamente rechaçado e perseguido. As intervenções urbanísticas, pouco a pouco, expulsavam os pobres dos centros das cidades. Havia controle sobre festas religiosas e carnavalescas e, quando se tratava da presença do culto afro-brasileiro, as tentativas de erradicação eram evidentes.

Foi neste clima que Mário de Andrade e outros modernistas decidiram promover estudos acerca das referidas manifestações. As teorias do modernismo musical, basicamente, vislumbravam que os compositores brasileiros “falassem” a língua nacional, que conhecessem a “língua rural”, ocultada e “preterida pelos “ares da civilização”. De certa forma, almejavam também modificar as fronteiras existentes entre a cultura popular e a cultura erudita.

A música produzida no Brasil de então era revestida de uma roupagem europeia. Pelo ideário modernista, os elementos musicais brasileiros que eventualmente estivessem contidos numa obra, poderiam, ali mesmo desaparecer- Um exemplo desse tipo de produção seriam as óperas de Carlos Gomes, detentoras de uma “roupagem italiana”, à qual Mário de Andrade costumava criticar, proferindo o célebre bordão: “ São Aídas feitas sobre medida para Verdis”.

Apesar de suas múltiplas ocupações, Mário preservava um pouco de seu tempo para repassar conhecimentos a jovens intelectuais, muitos deles, aspirantes a músicos, que com o passar dos anos tornaram-se renomados compositores brasileiros, deixando para o Brasil, heranças musicais de valor inestimável.

Mário fazia de sua casa uma sala de estudos, onde jovens podiam consultar o acervo de sua biblioteca e, ainda, em conversas informais, “beber” de todo seu conhecimento. Luciano Gallet, Francisco Mignone, Guerra Peixe, Camargo Guarnieri e até mesmo Heitor Villa Lobos, foram alguns dos compositores influenciados pelos ideais de Mário de Andrade.

Os discípulos de Mário de Andrade, contudo, apesar de terem deixado ao país um acervo riquíssimo em obras, muitas vezes não tiveram a coragem de estampar os seus próprios nomes em suas composições. Talvez por medo de serem repelidos do cenário da música de concerto, ou mesmo, por considerarem que tais composições, pautadas no elemento popular, fossem incompletas ou “menores” —  já que esta era a mentalidade hegemônica-social da época.

O fato é que, por vezes, ao se valerem de ritmos específicos “brasileiros”- como as congadas, maracatus, cânticos de Xangô, repente e cavalo marinho, tais compositores optavam pelo uso de pseudônimos; é o caso de Francisco Mignone e Guerra Peixe, por exemplo. O primeiro, no início de sua carreira, utilizava o pseudônimo de Chico Bororó. Já o segundo, fazia uso de diversas “assinaturas musicais”, como Bob Morel, Jean Kelson e Célio Rocha (esta última, em homenagem à primeira esposa, Célia Rocha).

Apesar disso, deixaram obras que, assim como as de Mário de Andrade, foram capazes de atravessar o tempo e as fronteiras. Hoje, em pleno século XXI, compositores das décadas de 30 e 40 têm suas obras executadas e utilizadas didaticamente em conservatórios musicais de todo o mundo.

Legado Crítico e Teórico-Musical
Assumindo a tarefa de orquestrar uma nova “música nacional”, Mário de Andrade escreveu obras basilares para o desenvolvimento da musicologia brasileira. Considerado o primeiro grande pesquisador atuante nessa área, escreveu obras como Ensaios Sobre a Música Brasileira; Compêndio Da História Da Música ; A Música e a Canção Populares no Brasil; As Melodias do Boi e outras Peças; Modinhas Imperiais; Música de Feitiçaria no Brasil; Danças Dramáticas do Brasil; Os Cocos; Pequena História da Música; Dicionário Musical Brasileiro; Introdução à estética musical; Música doce Música etc —  muitas delas, frutos de suas anotações e estudos desenvolvidos ao longo das duas viagens etnográficas, que realizou na década de 1920; e da Missão de Pesquisas Folclóricas (1936-1938) que organizou junto à Discoteca Pública, quando exerceu o cargo de chefe do Departamento de Cultura do município de São Paulo.

Sua preocupação em ajudar a construir uma música de caráter eminentemente nacionalista evidenciou-se, também, na mídia impressa. Colaborador de veículos como Diário Nacional, Diário de S. Paulo, Folha da Manhã, Estado de São Paulo e Revista Nova, Andrade escreveu inúmeras resenhas e artigos acerca da produção musical de sua época. No jornal Folha da Manhã, inclusive, assinou a seção Mundo Musical, escrita entre 1943 e 1945, cujo conteúdo, segundo ele, era destinado, sobremaneira, a “seus discípulos” —  jovens que se viam, quase sempre, desamparados de referenciais na área musical.

Mário dizia não “levar muita fé” nos conteúdos publicados em mídia impressa—  textos “destinados à existência de um só dia” — por isso, selecionou e organizou alguns desses escritos, disponibilizando-os na obra Música, Doce Música, de 1933.

Vale ressaltar que os textos de Mário de Andrade, além do intuito estético-pedagógico firmado em fins nacionalistas chegaram a transcender tal propósito, adentrando em eixos investigativos que buscavam estabelecer as correlações entre o inconsciente humano e a música primitiva. É o caso da obra Música de Feitiçaria do Brasil, livro em que Andrade relata um “estado de entorpecimento” vivenciado durante uma viagem a Natal-RN, em1928, quando participou do ritual “Catimbó de Dona Palestina” empregado para “fechar seu corpo”. A partir dessa experiência, Mário de Andrade passou a estudar a relação entre ritmo, repetição e hipnotismo, estabelecendo reflexões que deram origem a obras como Pequena História da Música e Namoros com a medicina.

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Referências bibliográficas
Catálogo Villa-Lobos, sua obra – 3ª edição, 1989.
– MOYA, Fernanda Nunes. OS ESCRITOS SOBRE MÚSICA DE MÁRIO DE ANDRADE: Em defesa do nacionalismo musical e da criação da Discoteca Pública Municipal de São Paulo. – Disponível em http://www.outrostempos.uema.br/OJS/index.php/outros_tempos_uema/article/viewFile/76/62. Acesso em 10/04/2017.
– TONI, Flavia Camargo. Mario de Andrade e Villa-Lobos. São Paulo: Centro Cultural São Paulo, 1987.
– TRAVASSOS, Elizabeth. Modernismo e Música Brasileira. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2000.

Professora da Universidade Vila Velha- UVV/ES, onde ministra disciplinas relacionadas à literatura e produção de gêneros textuais, tem atuado também como pesquisadora, seguindo a vertente “Música, Comunicação e Sociedade”. Andressa é Doutora em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo, onde também cursou mestrado e especialização na referida área. Graduada em Jornalismo (UVV/ES), Direito (UVV/ES) e Música (Faculdade de Música do Espírito Santo) é autora dos livros “Achilles Vivacqua : vida e obra” (2008) e “ζωή [vida]” ( 2014).

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