Miles Davis: o camaleão do Jazz nas telas do cinema

Miles Davis: o camaleão do Jazz nas telas do cinema

Eis uma boa notícia para os amantes do Jazz: está marcada para o dia 1º de abril, nos cinemas americanos, a estreia do filme Miles Ahead! Dirigido e protagonizado por Don Cheadle, o longa é uma cinebiografia do lendário trompetista Miles Davis, um gênio de sensibilidade musical única, mas também um furacão de personalidade, como vocês podem ver no artigo de Thiago Goulart. Boa leitura!

Miles Davis foi o que podemos chamar de camaleão do Jazz. Mudou a rota da música muitas vezes. Aliás, mais do que qualquer outro músico em qualquer modalidade sonora. Iniciou os trabalhos no bebop, foi um dos arquitetos do cool jazz e do hard bop, precursor do jazz modal, jazz-rock e fusion. A busca incessante pelo novo o fez embarcar em alguns projetos muitas vezes de cunho duvidoso, principalmente nos anos finais da carreira. Mas essa é a característica do camaleão: nova roupagem e novas adaptações rumo aos desafios de ordens diversas.

Tais características são marcantes em Miles Davis. Um gênio! E… genioso! Por um lado, a sensibilidade artística à flor da pele que poucos mortais possuem; por outro, capaz de ser agressivo às pessoas que lhe queriam bem. Miles nutria muitas obsessões, além da música: carros, mulheres, boxe e heroína.

Miles Davis treinando boxe.

Uma das muitas paixões de Miles Davis: o boxe.

A título de curiosidade: Miles colecionava carros e, num dia de azar e por ser negro numa sociedade fortemente marcada pela segregação racial, foi confundido com um ladrão ao entrar em uma de suas Ferraris depois de uma apresentação num clube de Nova York. Foram necessários três policiais para espancá-lo e detê-lo, já que dois deles Miles havia dado conta enfiando-lhes bofetadas e pontapés.

Após o fato, o trompetista fez as malas e partiu novamente para onde tornava-se um igual, onde a liberdade e o respeito imperavam: Europa, mais precisamente a França. Lá, conquistou ainda mais legiões de fãs, principalmente as mulheres.

Outro viés que o incomodava na América, além do racismo, era o fato de que alguns críticos detratores afirmavam que Miles não se importava com o passado. Somente o novo lhe interessava. Fanfarronice e miopia crítica de péssimo gosto. Miles sabia que quem ignora o passado sofre de inépcia mental, pois a memória é a base da criação. Tanto é assim que, em seus últimos anos de vida, Miles reafirmara em várias entrevistas sobre o quarteto de coringas que o influenciou, sendo constantes em suas pesquisas: Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Clark Terry e Billy Eckstein, ou seja, todos do passado.

Muitos músicos que trabalharam com Miles diziam sobre a sua busca por algo que lhe parecesse sonoramente original, nem que para isso desse uma guinada em suas formações de palco e estúdio integrando-se com jovens músicos sempre competentes e muito experimentais para obter o som desejado. Miles era exigente e os estimulava, forçando-lhes a irem até o limite das possibilidades sonoras na tentativa de retirar-lhes a essência do que se buscava.

É possível observar isso no final dos anos 60, e mais intensamente nas décadas de 70 e 80 as quais foi acompanhado por músicos bem mais novos do que ele: o trio Hancock (piano), Ron Carter (contrabaixo) e Wayne Shorter (sax), e posteriormente com os pianistas Keith Jarret e Chick Corea. Há muitos outros.

Miles Davis tem o trompete apontado para o futuro, cujas raízes estão no passado. Morreu com 65 anos. Novo. No entanto, Miles viveu muitas vidas em uma. Há milhares de histórias que não se narram em um livro, muito menos em filme. Impossível de dar conta. O diretor e ator Don Cheadler aceitou o desafio e fez uma cinebiografia do, talvez, maior e mais controverso músico do século XX. Em breve nos cinemas, Miles Ahead.

(Assista abaixo o trailer oficial do filme)

Thiago Goulart é Professor de Literatura e estudante de jornalismo (Puc-SP), com ênfase em Jornalismo Cultural pela Unicamp.

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