A missão musical de Turi Collura

A missão musical de Turi Collura

Há 15 anos, o pianista, compositor e professor de origem italiana Salvatore Collura, mais conhecido como Turi Collura, natural de Catânia, na Itália, escolheu o Brasil para viver. Aqui desenvolveu uma sólida carreira, tendo publicado quatro livros em português – dois sobre improvisação, um sobre ritmos brasileiros para piano e um específico sobre a Bossa-Nova – que muito contribuíram para as áreas em questão, tendo em vista a escassez de material em língua portuguesa sobre esses temas.

Além disso, gravou e lançou no Brasil dois discos: o primeiro com músicas próprias – que ganhou uma edição japonesa – e o segundo dedicado inteiramente ao compositor brasileiro Noel Rosa. Turi foi idealizador ainda do espetáculo “Cartoons em Jazz”, no qual apresentou temas de desenhos animados dentro de uma linguagem jazzística.

Todo esse trabalho e dedicação fizeram com que ele se tornasse um nome conhecido no cenário musical brasileiro.

Nesta entrevista, Turi Collura nos fala sobre sua história, o início da carreira, o primeiro contato com o piano, como veio para o Brasil, seus trabalhos e, ainda, qual acha que seja sua missão e o que mais o deixa realizado enquanto professor.

Elvio: Turi, quanto tempo você tem de carreira ao todo?

Turi: Bom, há duas carreiras diferentes: uma de compositor, ou de pianista, que talvez poderia se agregar em uma só; e outra que é a de professor. Quando exatamente começou? Eu não sei, porque eu comecei a dar aula cedo. Com dezoito anos já estava dando aula. Poucas, esporádicas, nessa época eu ainda estudava, morava com meus pais, mas de todo modo, já dava aula. Então, minha carreira como professor já acontecia nessa época. Já a minha carreira como instrumentista começou, como a de muitas outras pessoas, meio informalmente. Eu ainda estava estudando e acontecia de tocar em algum bar, um pub, ou algo do tipo.

Turi Collura - palestra

Turi Collura durante palestra.

Eu tive a grande sorte, quando eu fiz a escola de jazz em Milão, de ser o pianista mais disponível naquele momento, e que sempre “quebrava um galho”. Então todos os grupos me chamavam. Acompanhava muitas cantoras, o que me proporcionou certa facilidade de transposição. Eu era, naquele momento, daquela safra, o mais disponível entre os melhores pianistas. Talvez até tivesse algum outro pianista bom, mas não estava disponível, eheh. Então aquele foi um período em que eu saí muito para tocar, e por isso foi muito importante. E a partir daí, comecei a ganhar um dinheiro aqui, um dinheiro ali tocando na noite. Esse foi o começo. É claro que ainda no maior anonimato, absolutamente jovem, com muito caminho ainda a se percorrer.

Elvio: E voltando mais ainda no tempo, qual foi o seu primeiro contato com o piano?

Turi: Meu primeiro contato foi assim: meus pais me deram um “tecladinho” de presente quando eu era ainda muito pequeno. Eu não lembro muito bem. Lembro que tinha aquele teclado, que era de brinquedo, e que eu brincava com aquilo, gostava dele. E eu lembro também que uma vizinha tinha um piano, e que eu ficava encantado com ele. Então meu avô por parte de mãe, que vinha de uma família simples e havia sido operário, e que gostava muito de música, de ópera, quando eu tinha sete anos me chamou e perguntou: “se eu comprar um piano pra você, você estuda?” Eu respondi que sim. E então com essa idade ele me deu um piano e eu comecei o estudo musical com uma professora.

Elvio: Chegou a interromper em algum momento?

Turi: Sim, parei várias vezes. Com dez anos eu entrei no conservatório, e com treze eu saí, porque não aguentava “aquela coisa de conservatório” que para mim não estava funcionando. Eu não vinha de uma família de músicos, então eu estava muito sozinho nessa “empreitada”, ninguém me acompanhava. Então aquela música que eu estava fazendo no conservatório, daquela forma, sem ninguém para me explicar o porquê daquilo, eu não gostava. Aí um ano e meio depois eu voltei para uma professora particular e parei de novo… Com 16 anos eu comecei a tocar em uma banda de blues e rock’n’roll e com 18 eu quase parei com tudo. Com essa idade eu pensei em vender o que tinha – havia comprado um sintetizador, por exemplo. Eu estava em crise. Falei: “eu vou parar com isso. Vou parar porque não estou achando aquele caminho que eu estava buscando na música”. E o que eu estava buscando? O jazz. Uma música instrumental mais culta que eu não sabia que existia, porque na minha casa não se ouvia aquilo. Então, com 18 anos conheci o meu primeiro professor de piano blues e jazz. E nesse momento o mundo se abriu pra mim. Foi quando decidi que me tornaria músico. Mas, ainda assim, eu não sabia muito bem o que ia ser da minha vida. Tanto que, para agradar o meu pai, eu estudei três anos de Economia. Meu pai me convenceu por um momento de que músico não era profissão. Então eu fiz três anos do curso de Economia com muita dedicação, mas ali não havia um amigo, uma namorada que me interessasse (risos). O perfil daquelas pessoas não era o mesmo que o meu. Saía de lá e ia me encontrar com músicos, a “minha tribo”. Era como se eu tivesse uma vida dupla. Foi quando falei com meu pai que se fosse continuar na área da Economia eu morreria infeliz, que eu queria mesmo continuar na música.

Elvio: Hoje, o que a música e o piano representam para você?

Turi: A música para mim hoje é a vida. Não consigo imaginar uma vida sem a música. Finalmente eu consegui viver dela. Embora meus pais até hoje ainda não entendam como eu vivo de música (risos).

A música segundo Turi Collura: vida.

Elvio: E antes de vir para o Brasil, você chegou a ter na Itália uma carreira estável tal como a que você tem aqui hoje?

Turi: Eu era mais jovem, lá eu tocava na noite, como disse, sem ainda olhar para “a minha música”. Lá tem muito músico bom e muita música acontecendo. Eu era um “funcionário” da música, como muitos outros. Não era nenhum líder, nenhum artista ainda, porque não tinha maturidade para isso. Eu era apenas um pianista. Há pianistas que com 50, 60 anos continuam sendo pianistas. Acompanham muito bem e tudo mais, mas não se tornam líderes no trabalho, o que eu acho que só acontece quando você começa a compor. Eu já compunha naquela época, mas não tocava minhas músicas. Ficavam guardadas numa gaveta. Tanto que no meu primeiro disco, “Interferências”, que eu gravei aqui, em 2007, gravei músicas que eu tinha composto quando tinha vinte e poucos anos, e que nunca tinham sido expostas, porque eu acho que a minha maturidade interna ainda não estava pronta. Eu não estava pronto.

Elvio: Como surgiu o desejo de vir para o Brasil?

Turi: A minha família se mudou para Milão quando eu tinha 21 anos. Eu passei 11 anos naquela cidade sem jamais gostar de lá. Há uma diferença muito grande entre o norte e o sul da Itália. O sul é mais poético, produz mais literatura. Já o norte é o lugar onde você trabalha, trabalha, trabalha… Lá eles são mais mal-humorados, o clima não é bom e há uma divergência cultural muito grande, porque na Itália houve um êxodo muito grande de pessoas do sul que foram para o norte para serem operárias, isso nos anos 60. Então, no norte, a imagem que se tem das pessoas do sul é que elas são ignorantes.

Turi Collura e músicos do CD Interferências.

Turi com músicos que participaram das gravações de seu primeiro disco, Interferências.

E eu não gostava daquilo, e sempre quis sair de lá. E nesse meio tempo eu encontrei a Neusinha (brasileira com quem se casou), que passou 15 anos na Itália, e que também tinha vontade de ir embora de Milão. Então eram dois querendo ir embora de lá, em busca de um lugar mais quente, com praia… E enquanto eu pensava em me mudar para Barcelona, ela manifestava o desejo de voltar para o Brasil e disse: “eu vou te mostrar o Brasil.” E eu aceitei. Passamos 45 dias aqui, mais ou menos, rodamos bastante. O Brasil de 15 anos atrás era um país bastante promissor, um país em fase de crescimento e desenvolvimento, então eu resolvi concordar em morar no Brasil. Era o que ela queria, e eu topei.

Elvio: E nesse primeiro momento você já tinha algum projeto em mente? Como e onde trabalhar, por exemplo?

Turi: Nenhum. Cheguei e comecei a tocar na Curva da Jurema (praia muito frequentada em Vitória). Foi uma coisa corajosa, mesmo, porque Neusinha veio com um trabalho e eu não. Mas eu sabia que como músico, eu poderia migrar para qualquer lugar. Músico, professor de música, em qualquer lugar do mundo pode dar aula, tocar… Só muda a geografia (risos).

Elvio: Atualmente você é autor de vários livros. Por que começou a escrevê-los?

Turi: Os livros eu comecei casualmente a escrevê-los, porque dava aula na Faculdade de Música do Espírito Santo (Fames), e percebi que faltava material sobre improvisação em língua portuguesa. Isso foi em 2004. Uma vez que notei essa escassez de métodos em português, comecei a escrever o que eu achava que fosse um caminho legal para o aprendizado, e que dava certo nas aulas. E quando publiquei esse material, o mercado, sedento de informação, o acolheu muito bem. No começo publiquei por minha conta, acreditando no valor da obra. Alguns meses depois, com minha grande surpresa, recebi um e-mail da Editora paulista Irmãos Vitale! Eles queriam publicar os livros!

Improvisação Vol.1

Método de improvisação

Improvisação Vol.2

Método de improvisação - Livro de improvisação vol. 2

Elvio: Nos seus livros sobre improvisação percebe-se que você se preocupa não apenas em expor a linguagem jazzística, mas também a linguagem “brasileira”. Por que essa atenção com a música brasileira?

Turi: O que me moveu a isso foi o fato de que nas minhas aulas eu falo de Bach, de Pixinguinha, de John Coltrane… Ou seja, de linguagem tonal, que é onde está a base de tudo. Então Chopin ou Jobim, do ponto de vista harmônico são “a mesma coisa” (risos), só muda a quantidade de dissonâncias que a gente coloca, tanto harmonicamente como melodicamente. Nós temos um tratamento melódico que é parecido. Por exemplo, aquela ideia do caminho de nota de tensão e nota de resolução melódica é tudo. Isso você aplica no Choro ou em qualquer estilo musical que se baseia no sistema tonal.

Elvio: Sobre um outro livro de sua autoria, o de levadas brasileiras para piano, de onde surgiu a ideia de escrevê-lo?

Método Rítmica e Levadas Brasileiras: livro + CD + DVD

Rítmica e Levadas Brasileiras para o piano completo

Turi: Eu cheguei aqui no Brasil e me perguntei: “como é que eu vou aprender a tocar música brasileira?” E mais uma vez o que aconteceu? Não tinha livro, não tinha um método. Então eu corri atrás de decodificar os ritmos brasileiros. Corri atrás de encontrar pessoas como, por exemplo, Leandro Braga, que é um grande pianista e conhecedor da música brasileira, que me orientou nesse sentido. E começando a viajar, por lazer ou a trabalho, comecei a fazer um mapa dos ritmos brasileiros. Observava que para violão havia métodos, mas para piano não. Então comecei a transcrever os ritmos e comecei a ver como os pianistas brasileiros mais renomados, como Cesar Camargo Mariano, Tânia Maria, Egberto Gismonti, entre muitos outros, aplicavam isso às teclas. Precisei também, ensiná-los em minhas aulas, enquanto professor! Com o tempo descobri “truques” além das transcrições rítmicas, como a da divisão da mão semelhante ao pandeiro, que eram aplicáveis no piano. Essa é uma coisa que César Camargo Mariano, por exemplo, faz, mas que nunca tinha sido transcrita ou codificada. Hoje, o livro de rítmica é o que vende mais entre os meus métodos, prova da necessidade que há desse tipo de informação.

Elvio: Você tem ainda um outro livro específico sobre a Bossa Nova. Por que focar em um único estilo?

Turi: Porque a Bossa Nova engloba aspectos que vão além da rítmica. Ela envolve também uma necessidade de estudo harmônico. A gente ouve muito falar que a Bossa Nova tem a harmonia do Jazz, mas não é bem assim. A Bossa Nova tem uma linguagem própria. Certamente ela foi influenciada pelo Jazz, não há dúvida, porém não é só de Jazz que ela vive. Se assim fosse, haveria Blues dentro da Bossa Nova. O Blues é o maior pilar da linguagem jazzística. E onde está o Blues na Bossa Nova? Não há. Sabemos, por outro lado, que o Tom Jobim gostava de Chopin, dos compositores do século XX, de Débussy, de Ravel, entre outros. Então a gente pode observar algumas características harmônicas que não são jazzísticas. O acorde diminuto, por exemplo, no Jazz é pouquíssimo utilizado. Usa-se, porém em outro contexto. E o uso copioso dele, como há na Bossa Nova, é algo chopiniano. Há também a questão da melodia da Bossa Nova, que é uma melodia tipicamente brasileira. Para além de seus elementos rítmicos, ela é uma melodia que se utiliza bastante de notas de tensão. Então isso tudo são características marcantes da Bossa Nova. Talvez seja uma das linguagens mais complexas do século XX. Não por acaso ela é cultuada no mundo inteiro, mas infelizmente não tanto aqui no Brasil.

Método Piano Bossa Nova: Livro + DVD

Bossa nova ao piano

Elvio: Agora indo mais para a área da sua atuação como intérprete: um dos trabalhos mais notórios da sua carreira é o Cartoons em Jazz. Como ele foi idealizado?

Turi: Isso é algo comum (risos). Há vários grandes jazzistas intérpretes que tocaram músicas de desenho animado, então eu não sou nenhum precursor disso. E se você pensar, músicas como a do Batman e a do Homem-Aranha são Blues. Eu comecei então a incorporar alguns desses temas primeiramente dentro das minhas noites de apresentação. Houve um show em um festival de jazz, na “Estação Porto”, em Vitória, em que toquei músicas do meu primeiro disco e músicas de desenho animado, e percebi que estas últimas estavam chamando muito a atenção. O que teve de realmente novo no Cartoons em Jazz foi a roupagem teatral utilizada.

Elvio: Outro trabalho seu de destaque é o disco que você gravou com composições de Noel Rosa. Entre tantos compositores brasileiros, por que o Noel? Qual é a sua relação com esse compositor?

Turi: Eu conheci Noel Rosa em uma roda de samba na Curva da Jurema. Eu tinha acabado de chegar no Brasil, entendia muito pouco de português, estava travando um primeiro contato com o samba, não sabia de nada, não conhecia nada. E aí o pessoal tocava uma música, eu gostava daquela música e perguntava: “de quem é essa música?” E aí me respondiam que era de um compositor chamado Noel Rosa. Daí a pouco eles cantavam outras canções e quando eu gostava de uma e perguntava de quem era, sempre era do Noel. Então eu pensei que eu tinha que conhecer esse cara. Aí,  Neusinha, que não é apenas uma ótima companheira, mas também uma ótima embaixadora do Brasil, pois já “carregava” muita cultura brasileira, inclusive na Itália, tinha uma biografia do Noel. Isso foi uma grande referência pra mim, e eu comecei a ouvir a obra dele, que é especial, tanto pela música em si, mas sobretudo pelas letras. As letras de Noel são geniais. E quando comecei a estudá-lo vi que ele era um dos pais da moderna canção brasileira. Noel me cativou pela sua genialidade. Ele é fantástico. (Ouça abaixo, na interpretação de Turi Collura, Último Desejo, de Noel Rosa, faixa presente no disco Conversa na Vila.)

Elvio: Turi, com todo esse trabalho já desenvolvido, tanto como professor e como músico, qual você acha que seja a sua missão?

Turi: A minha missão é a de dizer para os estudantes: você pode. A música não é difícil. A harmonia não é difícil. E todo mundo pode criar. Eu vejo que mais do que música, você deve dizer para as pessoas que elas devem acreditar nelas mesmas.

Elvio: E o que te deixa mais feliz nisso tudo?

Turi: Ver que um estudante está se sentindo realizado, independente do nível de conhecimento musical dele. Não me interessa apenas criar um virtuoso do instrumento. Claro que é interessante saber tocar muito bem, e meu desejo é ver meus alunos tocando muito mais do que eu. Isso me deixa muito feliz. Mas acima disso, o mais importante é ver a pessoa realizada. Também fico contente quando viajo para outros lugares e alguém me procura e demonstra que eu representei algo de importante para ele. Isso me faz feliz.

Turi Collura - professor

Turi Collura com alunos durante workshop realizado na universidade de Campbellsville, Kentucky.

Algumas outras músicas de Turi Collura:

Editor chefe do Terra da Música, Elvio é formando em jornalismo. Estudou piano e flauta na Faculdade de Música do ES, dedicando-se ao piano erudito e popular. Sua vida se resume em encontrar tempo para se dedicar a todas as suas paixões: música, cinema, idiomas, literatura, jornalismo, psicanálise, e muitas outras.

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