Música e filosofia: a origem do nome música

Música e filosofia: a origem do nome música

Conversando sobre mitologia grega, uma pessoa me questiona: qual era considerada a musa da música? De imediato dei a seguinte resposta: “não existe uma musa da música, todas as musas são música”. Minha resposta incomodou de duas formas à pessoa que perguntara. Não seriam todas as musas da música? E, mesmo se assim o fossem, como poderiam todas elas serem da música? Calíope não era a musa da poesia? Clio da história? E assim por diante? Cada uma possuía o seu domínio como musa. Sim, concordo, porém, explicarei minha resposta inicial.

“não existe uma musa da música, todas as musas são música”

Para compreender que todas as musas são música é preciso compreender a origem das musas como guardiãs da memória. As musas nascem da união entre Zeus, o deus dos deuses do Olimpo e a filha de Urano e Gaia, irmã de Chronos e Oceanos, Mnemósine, deusa da memória. Não por acaso, Mnemósine guarda toda infinitude em sua genealogia – filha do céu (Urano) e da terra (Gaia), irmã do tempo e do oceano. Mnemósine atravessa o tempo absoluto, isto é, o tempo medido e racionalizado. Durante nove noites Zeus e Mnemósine copulam e dessa união nascem nove musas.

Elas, as musas, são o próprio canto no seu cantar, cantam a memória, nascem para trazer à presença, através do canto, a glória dos deuses. Acompanhadas da melodia da lira de Apolo, dançando e cantando ao redor da fonte e do altar de Zeus no Monte Olimpo, são filhas e ao mesmo tempo a própria personificação da memória. Uma vez em seu canto, o que foi dito não pode ser esquecido.

No grego antigo, esquecimento é dito na palavra lethe, o rio que atravessa o Hades (na mitologia grega, espécie do que se conhece por inferno), e quem bebe da água deste rio esquece tudo que viveu. O canto das musas é o não esquecimento dito na palavra a-lethéia, isto é, o que o grego entende por verdade. Essa verdade é aquilo que se apresenta da maneira que é, diferente da concepção dualística na qual compreendemos a verdade hoje: oposição entre verdadeiro e falso.

Apolo e as Musas, de Heinrich Maria von Hess

Na mitologia grega, acompanhadas da lira de Apolo, as nove musas cantavam e dançavam. O quadro Apolo e as Musas, de Heinrich Maria von Hess representa a cena.

Na mitologia grega, acompanhadas da lira de Apolo, as nove musas cantavam e dançavam. O quadro Apolo e as Musas, de Heinrich Maria von Hess (1798-1863) representa a cena.

Reiterando o que já disse em um texto anterior, para o grego não há distinção entre poesia e música, as duas são compreendidas como unidade na palavra mousiké, atividade que provém das musas e que deu origem ao nome música – museion era o templo das musas que deu origem a palavra museu. Na verdade, a poesia começa a se destacar como gênero literário independente da música na Idade Média, pela “revolução poética” operada principalmente por Guillaume de Machaut, quem defendia que o ritmo poético literário deveria sobrepor-se ao ritmo melódico musical.

A poesia grega era cantada. Toda musa, como guardiã da memória e dentro da atividade que lhe é própria, canta a história, a tragédia, a comédia. Por exemplo: na Teogonia, a origem dos deuses de Hesíodo, uma das mais importantes obras para compreender a mitologia grega, o poeta inicia seu canto evocando o nome das musas, uma espécie de “permissão” para começar a cantar. O aedo (na Grécia Antiga, poeta que cantava ou recitava acompanhado da lira) grego somente canta se a musa se faz presente em seu canto.

“são a própria palavra cantada, são o próprio canto em seu encanto”

Quando digo que todas as musas são música é porque as musas são a própria palavra cantada, são o próprio canto em seu encanto. O professor de língua e literatura grega da Universidade de São Paulo Jaa Torrano, em seu estudo e tradução da Teogonia, diz: “É preciso que primeiro o nome das Musas se pronuncie e as Musas se apresentem como a numinosa força que são das palavras cantadas, para que o canto se dê em seu encanto.”

Desse modo mesmo tendo cada musa seu nome associado a uma atividade que lhe é própria, todas elas desempenham seus empenhos no canto, na música que traz à presença a memória do que é cantado. Música neste sentido é memória e produz memória. As musas são música, pois o seu próprio nome se pronuncia no canto que cantam.

Violonista, mestre em música pela UFRJ e licenciado em música pela UFES, percorre uma linha de pesquisa denominada “poéticas da criação musical”. Seus trabalhos se desenvolvem no campo da filosofia, da poética e da escuta musical.

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