Música modal: do canto gregoriano à MPB

A noção de modalismo corresponde a sistemas musicais distintos. Podemos distinguir:

O modalismo “arcaico”

É um sistema não-harmônico, mas sim monódico, quer dizer, composto por uma só voz. Corresponde às práticas musicais ocidentais e extra-ocidentais. Na música ocidental citamos o cantochão, as músicas populares medievais. Esse modalismo pode ser chamado de “monodia modal”.

Da monodia medieval ao surgimento da harmonia tonal

A partir do século XII, os compositores começaram a utilizar mais de uma voz, isto é, mais de uma nota ao mesmo tempo. Nas primeiras experiências polifônicas, uma segunda voz se sobrepunha à distância de quartas e quintas da voz principal (veja o “organum” medieval). Sucessivamente, chegou-se a uma polifonia de quatro vozes. A concepção musical não era ainda harmônica, mas sim melódica. A dimensão vertical da harmonia era, ainda, considerada como o resultado do cruzamento das vozes. Durante os séculos seguintes, a progressiva sofisticação das técnicas compositivas levaram os compositores ao estudo do elemento vertical (século XV). Nesse período temos uma música polifônica pré-tonal, que utilizava harmonias compostas por tríades.

Com o desenvolvimento da polifonia e do contraponto, os compositores começaram a considerar o elemento harmônico por si só, e não como algo secundário resultado da combinação das vozes. Durante o século XVI, tornou-se clara a construção dos acordes sobre as escalas modais antigas do canto gregoriano, enquanto se tornava evidente a centralidade do acorde sobre o primeiro grau da escala.

Gradativamente (século XVII), os modos utilizados pelos compositores se reduziram a dois: o jônico e o eólio. Nesse período começa o amadurecimento da harmonia tonal.

O modalismo contemporâneo

É articulado em diferentes vertentes. A primeira corresponde à prática musical de numerosos compositores do início do século XX. Outra vertente corresponde à prática do jazz modal dos anos 60-70. Na música pop e na canção temos formas simples de modalismo que, às vezes, se misturam com elementos tonais.

A concepção atual do modalismo, que podemos definir modalismo harmônico, se baseia na harmonização das seguintes escalas modais: dórico, eólio, frígio, lídio e mixolídio.

Existe uma evolução histórica, na música ocidental, que vai da monodia modal até o sistema tonal, para chegar, nos nossos dias a linguagens diversificadas. Temos, então, um modalismo pré-tonal e um modalismo pós-tonal.

etapas da música modal

José Miguel Wisnik, em seu livro “O Som e o Sentido”, ressalta o sentido de ethos desempenhado pelos modos:

Nas sociedade pré-modernas, um modo não é apenas um conjunto de notas mas uma estrutura de recorrência sonora ritualizada por um uso [. . .] As notas reunidas na escala são fetichizadas como talismãs dotados de certos poderes psicossomáticos, ou, em outros termos, como manifestação de uma eficácia simbólica (dada pela possibilidade de detonarem diferentes disposições afetivas: sensuais, bélicas, contemplativas, eufóricas ou outras). Esse direcionamento pragmático do modo (que se consuma no seu uso sacrificial ou solenizador), já está geralmente codificado pela cultura, onde o seu poder de atuação sobre o corpo e a mente é compreendido por uma rede metafórica maior, fazendo parte de uma escala geral de correspondências, onde o modo pode estar relacionado, por exemplo com um Deus, uma estação do ano, uma cor, um animal, um astro.

Hoje, ao falarmos de modalismo, estamos nos referindo, na grande maioria das vezes, ao modalismo harmônico, com a harmonização dos modos e/ou com a inclusão de movimentos harmônicos provenientes desses “outros” campos harmônicos (que não pertencem aos modos jônico, menor harmônico e menor melódico).

compositores brasileiros

No âmbito da tradição oral, a música modal se encontra no mundo inteiro, cada cultura fundamentando sua produção em escalas e sistemas harmônicos diferentes.

No Brasil, o modalismo se manifesta especialmente na música popular urbana. Se gêneros musicais do sudeste brasileiro, como o samba e o choro, são caracterizados por estruturas tipicamente tonais, a música nordestina, por exemplo, se caracteriza por uma produção modal. A mistura de africanismo e de modos de tradição europeia, resultou em melodias com fortes identidades regionais. Luiz Gonzaga é tido como o pai do moderno modalismo popular brasileiro, tendo influenciado muitos outros compositores do Brasil inteiro. De Caetano a Egberto Gismonti, de Milton Nascimento a Edu Lobo, de Djavan a Guinga ou Hermeto Pascoal, a música popular brasileira resulta ser uma rica mistura de elementos modais e tonais.

Fruto da busca de novas sonoridades, timbres e cores, o modalismo trouxe a prática de harmonia por quartas, segundas e quintas. Isso se revela tanto nas harmonias jazzísticas bem como no Pop e no Rock.

Turi Collura é pianista, compositor, músico profissional. Atua como professor em Cursos de Pós-Graduação, em Conservatórios e Festivais de música pelo Brasil e no exterior.Formado na Itália em Disciplinas da Música (Bolonha) e na Escola de Jazz (Milão), é Mestre pela UFES, e Pós-graduado pela mesma Instituição.Turi é Coordenador Pedagógico do Terra da Música e Professor de alguns cursos online. É autor de métodos em livros e DVD (Improvisação, Piano Bossa Nova, Rítmica e Levadas Brasileiras para Piano), alguns dos quais publicados pela Editora Irmãos Vitale e com tradução em inglês.Ativo na cena musical como solista, músico de estúdio e arranjador, tem participado da gravação/produção de diversos discos. Em 2012, seu CD autoral “Interferências” ganhou uma versão japonesa. Seu segundo CD faz uma releitura moderna de algumas composições do sambista Noel Rosa.

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