O dia em que Albert Einstein quis tocar com Django Reinhardt

O dia em que Albert Einstein quis tocar com Django Reinhardt

Uma carta de 1946 cheia de sensibilidade, o famoso físico Albert Einstein revela sua paixão pelo jazz, pela música de Django Reinhardt… e o seu desejo de “trocar algumas notas” de jazz com o renomado músico.

15 de setembro de 1946

Caro Reinhardt,

No último mês de julho, fui convidado a participar em Nova York de um colóquio sobre a paz mundial. À noite, com alguns amigos, fomos ao Café Society, no Greenwich Village, para assistirmos à apresentação de Duke Ellington, pois fomos informados de que você agora fazia parte da orquestra, e qual não foi nossa surpresa ao notarmos que estava ausente. Ao final da apresentação, fui parabenizar Ellington pela performance pianística e a grande qualidade de sua orquestra.

Ele nos apresentou a muito calorosa Rosetta Tharpe, responsável pela primeira parte da noite. É uma mulher muito talentosa, possuidora de grandes qualidades morais, acompanhada de uma estranha guitarra em cujo centro se vê uma espécie de tampa de metal vibrante que gera um som cativante, correspondendo perfeitamente ao repertório de caráter bastante espiritual que executa.

na imagem: Duke Ellington (no centro) e Django Reinhardt no violão

Pensando que estivesse de alguma forma sentindo-se mal, perguntei de você a Ellington, que ficou contrariado de não poder responder minha questão, pois não sabia onde você estava pessoalmente. Ele me tranquilizou quanto à sua saúde e me contou que na noite anterior você estava num “estado elétrico” (foi o termo que ele usou). A partir disso, deduzi que você estava bem, percebendo que Ellington tinha uma concepção bastante pessoal de eletricidade. Bem calmamente, ele teceu um elogio sobre você, exaltando suas qualidades expressivas fora do comum, deixando mesmo os próprios músicos da orquestra, dentre os quais o jovial Fred Guy, subjugados pela facilidade que você tem em mudar de tom na improvisação.

Eu compreendi que seus hábitos eram pouco compatíveis com o rigor imposto pelas turnês americanas, e como eu te entendo: toda minha vida, eu lutei pela liberdade e continuo a lutar contra todos os obstáculos capazes de sufocar o espírito criativo, tão caro ao músico quanto ao cientista.

Você e eu somos da família daqueles que não possuem raízes, somos incompreendidos e eu seria o mais feliz dos homens no dia em que te desse um aperto de mão. E nesse dia, se você não vê nisso uma ofensa, nós poderíamos trocar algumas notas, você e sua guitarra que muitos consideram excepcional, e eu com meu violino, um Aegidius Klotz de muito bom acabamento, que minha mãe exigiu que meu pai comprasse, para que eu seguisse carreira de violinista, pois esse era o desejo dela… Eu ainda toco um pouco às vezes, quando tenho a necessidade de sentir, e acho que você concorda comigo nesse assunto, a esfericidade do todo que é quase nada se comparada ao vazio criativo.
Nós nos encontraremos um dia, tenho certeza disso, pois nada é definitivo.

Sinceramente seu,
Albert Einstein.

(Na imagem principal, Albert Einstein com seu violino. Einstein uma vez escreveu: “Se eu não fosse um físico, provavelmente seria um músico. Eu penso muito na música. Eu vivo meus sonhos em música. Vejo minha vida em termos de música”.)

Editor chefe do Terra da Música, Elvio é formando em jornalismo. Estudou piano e flauta na Faculdade de Música do ES, dedicando-se ao piano erudito e popular. Sua vida se resume em encontrar tempo para se dedicar a todas as suas paixões: música, cinema, idiomas, literatura, jornalismo, psicanálise, e muitas outras.

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