Os anos de Frank Sinatra na orquestra de Tommy Dorsey

Os anos de Frank Sinatra na orquestra de Tommy Dorsey

Frank Sinatra, sem dúvidas, foi uma das maiores vozes do século XX. Porém, pouca atenção se dá ao início da carreira do cantor, quando ele, ainda jovem, atuando como coadjuvante em orquestras como a do trombonista Tommy Dorsey, mostrava um talento que viria para ficar.

Que tal, então, conhecer um pouco dessa fase da carreira de Sinatra? Confira o texto e a seleção de canções que Elvio Filho preparou para vocês!

“As únicas duas pessoas de quem sempre tive medo são minha mãe e Tommy Dorsey.” Frank Sinatra

Quando se cita o nome de Frank Sinatra, talvez a primeira imagem que nos venha à mente seja a daquele gentleman de meia-idade sempre elegante em seus ternos impecáveis. A voz de My Way ou New York, New York, canções que se tornaram sinônimos de classe e fineza em forma de música. Um homem tão poderoso e com uma carreira tão sólida que fez com que o jornalista norte-americano Gay Talese, no perfil que escreveu sobre o cantor em 1966, intitulado Frank Sinatra está resfriado (um dos textos mais clássicos do gênero perfil de todos os tempos), assim o descrevesse:

“Sinatra resfriado é Picasso sem tinta, Ferrari sem combustível – só que pior. Porque um resfriado comum despoja Sinatra de uma joia que não dá para pôr no seguro – a voz dele –, mina as bases de sua confiança, e afeta não apenas seu estado psicológico, mas parece provocar também uma espécie de contaminação psicossomática que alcança dezenas de pessoas que trabalham para ele, bebem com ele, gostam dele, pessoas cujo bem-estar e estabilidade dependem dele. Um Sinatra resfriado pode, em pequena escala, emitir vibrações que interferem na indústria do entretenimento e mais além, da mesma forma que a súbita doença de um presidente dos Estados Unidos pode abalar a economia do país.”

Porém, pouco comentada, lembrada e apreciada é outra fase da vida do cantor: aquela dos anos em que atuou na orquestra do trombonista Tommy Dorsey.

Tudo ou nada

O ano é 1939. Frank Sinatra era então um rapaz de apenas 23 anos. Um jovem cantor em início de carreira, mas com um visível talento. Na época, Sinatra rodava todos os Estados Unidos em companhia da big band do trompetista Harry James, orquestra na qual atuava, apresentando-se em boates. Até que, em 31 de agosto desse mesmo ano, acompanhado desse mesmo grupo, grava a canção All or Nothing at All.

O título da música não poderia ser mais apropriado àquele momento da vida de Sinatra. Para um cantor principiante, apostar em seu talento pode render como resultado tudo ou nada. No caso de Sinatra, foi tudo. A canção foi um extremo sucesso, sendo tocada em cada rádio dos Estados Unidos até chegar aos ouvidos de um dos bandleaders mais célebres dos anos 30 e 40: o trombonista Tommy Dorsey.

De fato, o sucesso de All or Nothing at All foi tão importante e decisivo para a carreira de Sinatra, que ele regravaria a canção no álbum Strangers in the Night, de 1966, além de cantá-la em apresentações ao longo de toda a vida. Nas palavras de James Kaplan, autor da mais recente biografia em dois volumes sobre o cantor (Frank: A Voz e Sinatra: O Chefão – Companhia das Letras, 2013 e 2015, respectivamente):

“É impossível ouvir essa música hoje e não pensar em tudo o que ela viria a ser: um enorme sucesso, uma marca registrada para Sinatra, um clichê tão delicioso que o animador Tex Avery poria cantor e música em um desenho da MGM (em que um gambá vestido como Frankie a canta para um bando de coelhas derretidas).”

Veja abaixo a animação citada acima por James Kaplan (note que o animador o tempo todo tira sarro com a compleição franzina e a baixa estatura do jovem Sinatra):

Sinatra e Dorsey

Assim, um dia em Chicago, ao ouvir All or Nothing at All, Tommy Dorsey, que na época passava por problemas com o então cantor de sua orquestra, Jack Leonard, resolve contratar Frank Sinatra, que coincidentemente também se encontrava em Chicago com a banda de Harry James – mas não sem antes fazê-lo passar por um teste.

Por meio de um bilhete enviado a Sinatra na noite em que este se apresentava com a orquestra de Harry James, Dorsey o convida a encontrá-lo no dia seguinte no hotel em que estava hospedado, o Palmer House. É claro que o cantor compareceu. E foi ali que o bandleader pediu para que ele cantasse Marie. Ouça:

Foi o que bastava. A partir de então, Frank Sinatra deixava a orquestra de Harry James para integrar a de Tommy Dorsey, que em finais de 1939 contava com o baterista Buddy Rich e o grupo vocal The Pied Pipers, do qual fazia parte a cantora Jo Stafford. E ali permaneceria até 1942, quando iniciaria sua fase na Columbia Records, como cantor solo.

Veja e ouça abaixo um raro registro em vídeo de Frank Sinatra acompanhado da orquestra de Tommy Dorsey e do grupo vocal The Pied Pipers. A música é I’ll Never Smile Again, de Ruth Lowe.

Durante os anos em que esteve junto da orquestra de Tommy Dorsey, Frank Sinatra teve a oportunidade de participar de uma prolífica rotina de sessões de gravação, que hoje podem ser encontradas em coletâneas como o disco duplo The Essential Frank Sinatra With the Tommy Dorsey Orchestra, que você pode adquirir clicando aqui.

Abaixo, segue uma lista subjetiva de algumas dessas gravações (o autor selecionou as que ele mais gosta):

1 – Polka Dots and Moonbeams

2 – I’ll Be Seeing You

3 – Blue Skies

4 – Imagination

5 – I Guess I’ll Have to Dream the Rest

6 – I’ll Never Smile Again

7 – How About You?

8 – Oh, Look at Me Now

9 – Once In a While

10 – I Tried

Editor chefe do Terra da Música, Elvio é formando em jornalismo. Estudou piano e flauta na Faculdade de Música do ES, dedicando-se ao piano erudito e popular. Sua vida se resume em encontrar tempo para se dedicar a todas as suas paixões: música, cinema, idiomas, literatura, jornalismo, psicanálise, e muitas outras.

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