A diferença entre ouvir e escutar

A diferença entre ouvir e escutar

No nosso dizer cotidiano, podemos muitas vezes estabelecer sinônimos entre conceitos essencialmente diferentes. A falta de cuidado no trato com as palavras nos conduz ao esvaziamento do sentido originário que é evocado no dizer de cada uma delas. Dizer, para o grego antigo, é dizer e mostrar, não simplesmente falar, articular sons com a boca, mas trazer – no sentido de evocar – à presença o que está sendo dito.

Para algumas pessoas pode ser um tanto óbvio que ouvir e escutar são conceitos diferentes, ao passo que para outras pode soar como novidade, mas o pensamento que vamos propor aqui se preocupa em enxergar o que se esconde atrás do óbvio.

Nossa questão está em como o dizer das palavras influencia no nosso caminho como músicos, assim como no caminho de nossos alunos e de nosso público como escutadores.

Ouvir

Para entendermos a diferença entre ouvir e escutar, devemos primeiro compreender o que nos diz cada palavra. Segundo a ciência, ouvir é o ato proveniente da atividade desempenhada pelo sistema auditivo que, por sua vez, capta as vibrações sonoras produzidas pelo ambiente onde o indivíduo se encontra. Nossa capacidade auditiva, se medida em Hertz, pode ir de 20 a 20.000 oscilações por segundo. A do cachorro, por exemplo, pode ir de 10 a 40.000 oscilações por segundo.

Sob esta perspectiva, podemos concluir que ouvir é a ação desempenhada pelo ouvido. Sabemos desses dados graças à evolução do pensamento científico – que é o pensamento hegemônico para nossa sociedade há séculos, e que tende a seccionar, reduzir à menor partícula os vários ramos do saber, criando assim uma enorme gama de especialidades baseadas em tarefas analíticas pré-determinadas.

Isso ocorre não somente na medicina, na física, na biologia ou química. O pensamento científico tomou conta também das artes, sobremaneira da música. Muitas vezes o ouvido do músico parece mais científico e analítico do que artístico. Exemplo disso é quando nos sentamos em uma sala de concerto e nos pegamos tentando descobrir tonalidade, andamento ou quantos comas determinado instrumentista desafinou em determinada frase.

Encontramo-nos nestas situações pois o ouvido do músico em grande parte é treinado para ser analítico, para esmiuçar cuidadosamente cada elemento de uma composição.

Entretanto, alheio ao ouvido analítico do músico, o ato de ouvir não é assim tão atento. Ouvimos quando captamos as vibrações em nosso entorno, mas normalmente não lhe damos muita atenção, apenas captamos o fluxo sonoro que simplesmente passa por nós. Por exemplo, o barulho de um ar-condicionado ligado, um carro passando na rua, o vento batendo nas folhas…

São sons que ouvimos a todo o momento, mas que cabe a nós escolhermos se lhes daremos devida atenção. Tal condição é inerente a cada indivíduo, sendo músico ou não – nunca conseguiremos dar atenção a todo som presente a nossa volta, principalmente em se tratando dessa espessa massa sonora que envolve a modernidade.

Escutar

Mas então o que é escutar?

Escutar é quando nascemos junto com a música, quando o corpo se dispõe por inteiro na presença do fenômeno que se mostra. Escutar não é somente uma ação isolada do ouvido, mas um fenômeno do corpo todo. Escutamos com o corpo, bem como a música é música se for escutada como todo e não como recortes.

Muitos músicos perderam o sabor de escutar música como todo, de não se preocupar em analisar recortes e elementos técnicos da música, de esquecer o ouvido analítico que treinamos diariamente para se dispor de corpo inteiro em um concerto, uma apresentação, um show. A escuta é o que rege a música, pois tanto os músicos quanto o público são escutadores do fenômeno que ali acontece.

Dessa forma podemos concluir que escutar e ouvir, apesar de serem duas palavras tidas comumente como sinônimos, não o são. Etimologicamente, segundo o dicionário Houaiss, ouvir vem do latim audio ou ainda da variante audire, que é “ouvir através de uma fonte”. Escutar vem do latim auscultare, que significa “ouvir com atenção” e que também deu origem à palavra auscultar, muito usada na medicina.

No grego, escutar se diz em homolegein, onde o prefixo homo é “o mesmo”, “igual” e legein está ligado ao “dizer”, ao “diálogo”. Então quem diz escuta o que ele mesmo diz, assim como na música, quem toca escuta o que ele mesmo toca. Como já disse Heráclito de Eféso: ‘Se não sabe escutar, não sabe falar’.

Escutar é estar com atenção, é por em presença da música o corpo como escutador. Quando a música se dá, a escuta condensa músicos e público na mesma dimensão, juntos de forma homogênea, juntos com e para a música.

 

Violonista, mestre em música pela UFRJ e licenciado em música pela UFES, percorre uma linha de pesquisa denominada “poéticas da criação musical”. Seus trabalhos se desenvolvem no campo da filosofia, da poética e da escuta musical.

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