Teatro de Madri se rende à música de Paquito D’Rivera e Chano Domínguez

Teatro de Madri se rende à música de Paquito D’Rivera e Chano Domínguez

Hoje Thiago Goulart está de volta com mais uma ótima resenha feita especialmente para os leitores do Terra da Música. Desta vez, sobre um concerto que uniu dois dos maiores músicos de Jazz da atualidade no palco do Teatro Real de Madri: Paquito D’Rivera e Chano Domínguez. Nem precisa dizer qual foi o resultado desse encontro, né? Apreciem!

A dupla deu certo. O concerto em questão é um caldeirão em que se flerta com uma profusão de ritmos. Os instrumentistas já percorreram inúmeras escolas jazzísticas. O local é significativo e o cenário inspirador. No DVD ‘Paquito D’Rivera & Chano Domínguez – Quartier Latin’, os dois músicos, juntos pela primeira vez, fazem a abertura de uma programação de Jazz organizado pelo pomposo Teatro Real de Madri, em que se apresentariam posteriormente Ron Carter, Rusell Malone, Richard Galliano e Gary Burton, dentre outros.

Ao abrir suas portas para o Jazz, o Teatro Real de Madri o fez em grande estilo. Primeiro, ao chamar um dos grandes clarinetistas e saxofonistas do que se convencionou chamar Latin Jazz, o havanês D’Rivera, que possui um vasto currículo e discografia que o autoriza a fazer parte dos panteões da música. Segundo, pelo pianista andaluz Chano Domínguez, cuja formação musical remonta à figura do pai, grande apreciador de Flamenco. Assim, as escolas distintas contribuíram, nesse caso, para temperar ainda mais as execuções de temas tão diversos entre si.

Cenário

Não satisfeitos com o que já seria um privilégio para o público ouvinte, a organização do evento resolveu aproveitar a mise-en-scène de um grandioso espetáculo operístico, o qual estava sendo encenado há poucos dias do evento jazzístico. O ambiente remete à boêmia região do Quartier Latin, numa Paris finissecular.

Quem possibilitou e viabilizou o cenário foi o diretor de teatro Giancarlo del Monaco para representar a grande peça do toscano Giacomo Puccini: La Bohème. A título de curiosidade, a peça estreou no Teatro Regio de Turim, em 1896. Aliás, para quem ficar de olho no cenário, poderá identificar o Café Momus, local em que as personagens de Puccini se encontram no segundo ato, representando a descontraída região.

Paquito D'Rivera & Chano Domínguez - Quartier Latin

Capa de Paquito D’Rivera & Chano Domínguez – Quartier Latin.

O concerto

É nesse ambiente que o concerto se inicia, com Domínguez ao piano executando Por Alegrias. D’Rivera entra em cena para tabelar com Chano a partir da segunda música, revelando-nos a tônica do concerto com I remember Dizzy (veja abaixo, à esquerda), de sua autoria. Com esta peça, o cubano realiza intertextualidades sonoras ao citar, em seus seguros fraseados, Salt Peanuts e A Night in Tunisia, ambos do trompetista Dizzy Gillespie.

Vale lembrar que Paquito dirige-se ao público evocando o fato de Gillespie ter sido um dos primeiros músicos a adicionar ritmos cubanos (Rumba e Bolero, por exemplo) e brasileiros (Bossa Nova) ao Jazz.

Um tema curioso, mas que não destoa do cuidadoso repertório escolhido é Poinciana, música de Nat Simon e letra de Buddy Bernier gravada por Ahmad Jamal, um dos pianistas favoritos de Miles Davis e que, segundo o próprio D’Rivera, foi o primeiro músico de Jazz a vender um milhão de cópias. Brincalhão, diz ao público: “Vocês têm alguma ideia do que é vender um milhão de cópias de algo que soa bem?”.

Segue-se então uma série de homenagens realizadas pelos protagonistas em Rumba pa’Jerry – aos irmãos Andy e Jerry Gonzalez –, A Mi Padre – autoexplicativo – , ambos de Chano, Bruselas en La Lluvia – ao gaitista belga Toots Thielemans – composição de Paquito, até a improvisação feita a partir de uma ária de Puccini, Aria de Musetta (veja acima, à direita), com arranjos de Chano. Ao que seria a última música, apresentam Don’t Get Around Much Anymore, de Duke Ellington e letra de Bob Russel que dispensam apresentações.

Para finalizar, D’Rivera e Domínguez, bisando pela segunda vez, atacam no mais alto estilo da música caribenha a Rumba Marina, do espanhol, em que soam excepcionalmente as percussões de Angá Diaz e Israel Suárez “Piraña”, em perfeita harmonia com a bateria de Marc Miralta e o baixo de Mario Rossy.

Desde a sua abertura, nunca houve um ciclo de Jazz no Teatro Real de Madri. Os madrilenos não sabiam o que estavam perdendo!

Thiago Goulart é Professor de Literatura e estudante de jornalismo (Puc-SP), com ênfase em Jornalismo Cultural pela Unicamp.

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