Paulinho da Viola: o artífice do Samba

Paulinho da Viola: o artífice do Samba

Paulinho da Viola, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, construiu uma obra que o fez consagrar-se como um dos maiores compositores da música brasileira e um dos grandes nomes do Samba. Definitivamente, alguém cuja música precisa ser ouvida. Por isso, na coluna “Para ouvir” do Terra da Música de hoje, Thiago Goulart fala não apenas sobre um disco dele, mas sobre um box com 11 discos!

Paulo César Baptista Faria, Paulo da Portela ou simplesmente Paulinho da Viola. De bancário a expoente da música brasileira. Em 2015, Paulinho completou 50 anos de estrada e a data não passou incólume aos seus apreciadores. A novidade: o público foi contemplado com um box que cobre parte significativa de sua obra na Odeon, ou melhor, 11 de seus 16 discos individuais gravados em estúdio. Trocando em miúdos, isso significa que na carpintaria do Senhor Paulinho da Viola, fomos presenteados por obras raras da mais alta valia e estirpe do Samba brasileiro. A caixa Ruas que Sonhei percorre a trajetória do sambista que vai de 1968 a 1979.

Ao ouvir as músicas, constata-se o avanço gradativo da genialidade do então jovem de 26 anos até a maturidade, ou seja, a busca pelo genuíno timbre vocal, a segurança nas composições, a precisão dos acordes e notas melódicas primeiro ao violão e, posteriormente, ao cavaco, a execução coletiva certeira do choro, a perpetuação do legado deixado pelos seus descendentes diretos que formam a genealogia do Samba: João da Baiana, Donga, Noel Rosa, Synval, Ismael Silva, Cartola, Nelson Cavaquinho, Jacob do Bandolim, Heitor dos Prazeres, Pixinguinha, Cyro Monteiro, Wilson Batista, Manacéa, Alavaide, Casquinha, Monarco e Candeia, Sidney Miller, Benedito Lacerda, Garoto e Canhoto da Paraíba, Sinhô, Geraldo Pereira e Monsueto, Zé com Fome, Padeirinho, Silas, Ventura, Aniceto, Ataulfo e por aí vai…

Paulinho da Viola e Canhoto

O compositor Paulinho da Viola (à direita) ao lado de Canhoto da Paraíba. 1978.

São essas ruas de influências líricas, poéticas, rítmicas, tão almejadas e sonhadas pelo trovador Paulinho da Viola que o fez ser reconhecido pela sua estética autoral. Em seus próprios versos: “É o segredo que outro dia te contei / O sol que morre nos cabelos das morenas / Um dia nasce sobre as ruas que sonhei”, canção que dá o nome ao box no qual estão compiladas as pepitas de ouro. Ouça abaixo:

Nesses 11 álbuns está nítido o processo de reconstituição e resgate de nossa identidade cultural. Como um artesão, Paulinho da Viola não só talha e dilapida o legítimo Samba brasileiro, como esculpe e enverniza os caminhos musicais que alicerçam sua trajetória.

A seguir, estão os nomes dos 11 discos que fazem parte dessa coletânea:

1. Foi um Rio que Passou em Minha Vida – 1970

Segundo disco da carreira do compositor, após dois anos do trabalho solo de estreia na Odeon.

2. Paulinho da Viola – 1971

Paulinho lança novo disco rodeado de amigos.

3. Paulinho da Viola – 1971

No mesmo ano, um novo disco de Paulinho chega ao mercado, com compositores de linhagem excepcional.

4. A Dança da Solidão – 1972

Emblemático trabalho da carreira, cujo repertório é um dos mais executados em rodas de samba de todo o Brasil.

5. Nervos de Aço – 1973

Uma canção de Lupicínio Rodrigues batiza esse álbum, consagrando definitivamente Paulinho da Viola como um dos mais importantes nomes da música brasileira.

6. Paulinho da Viola – 1975

Após um hiato de dois anos, o compositor chega ao mercado com mais um disco e algumas polêmicas sobre o governo vigente.

7. Memórias 1 – Cantando – 1976

8. Memórias 2 – Chorando – 1976

Concebido para ser um álbum duplo, traduz com precisão o olhar depurado e criterioso do artista acerca da própria obra.

9. Paulinho da Viola – 1978

Mais dois anos de hiato fonográfico, em que reaparece com novo álbum puxado pelo samba de quadra “Coração Leviano”, estrondoso sucesso na voz de Clara Nunes.

10. Zumbido – 1979

Disco que originou o espetáculo homônimo, Zumbido é a despedida de Paulinho da Viola da gravadora EMI-Odeon 11 anos após o lançamento de seu primeiro projeto solo.

11. Disco com gravações raras de Paulinho da Viola.

Thiago Goulart é Professor de Literatura e estudante de jornalismo (Puc-SP), com ênfase em Jornalismo Cultural pela Unicamp.

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