A influência de Roberto Menescal na Bossa Nova

A influência de Roberto Menescal na Bossa Nova

I – No apartamento de Nara

Pense rapidamente em três curingas da Bossa Nova… a resposta muito provavelmente será: o maestro Antonio Carlos Jobim, o poeta Vinicius de Moraes e o violonista que sintetizou a linguagem do Samba-Canção, do Bolero, do Samba e do Jazz, alargando sobremaneira os horizontes do cenário musical de então, João Gilberto. Pois bem, a Bossa Nova não foi esculpida somente por estas mãos, o que já seria suficiente, entretanto, para se ter um alcance universal.

Antes de surgir os célebres discos que marcariam o calendário da música brasileira em pré e pós Bossa Nova – Canção do Amor Demais (1958), com Elizeth Cardoso e Chega de Saudade (1959), com João Gilberto – uma turma de jovens reunia-se constantemente no terceiro andar do edifício Palácio Champs-Elysées, na Avenida Atlântica, em Copacabana, bem em frente ao Posto 4. O apartamento era propriedade do casal Dr. Jairo Leão e Altina Lofego Leão, pais da capixaba Nara Leão.

Muitos afirmam que a Bossa Nova nasceu a partir desses encontros. Na verdade, o movimento foi gestado muito antes a exemplo do dissonante e moderno piano de Johnny Alf, sobre quem – segundo o próprio Jobim – dizia-se ser o grande mestre. Um dos habitués do apartamento de Nara era o também capixaba Roberto Batalha Menescal que já a conhecia desde a adolescência. Aliás, Nara foi sua aluna, na famigerada Academia de Violão, em que Menescal tinha como sócio outro expoente bossa-novista, Carlinhos Lyra.

Livro Essa tal de Bossa Nova - Roberto Menescal

II – “Essa tal de Bossa Nova”

Ao longo de quase cinco anos, após um sem-número de entrevistas com Roberto Menescal, a jornalista e fotógrafa Bruna Fonte, em coautoria com o músico-protagonista, homenageia a Bossa Nova e um de seus principais artífices no livro Essa tal de Bossa Nova (Editora Prumo, 2012). A obra é uma espécie de desdobramento de outra intitulada O barquinho vai… Roberto Menescal e suas histórias (Irmãos Vitale, 2010).

Se neste a autora enquadra a vida pessoal de Menescal, naquele traz informações interessantes sobre o tumultuado evento que levou a Bossa Nova ao Carnegie Hall, em 1962. O autor de O Barquinho nos revela os bastidores dos 15 anos em que ficou afastado do violão, pois assumira, a convite de André Midani, o cargo de diretor artístico da PolyGram/Philips, trabalhando com músicos de diversas vertentes da MPB.

III – O começo

Aos 17 anos, fascinado pelo novo instrumento que tinha às mãos e iniciado na arte do violão por Edinho, do Trio Irakitan, Roberto Menescal optou em ser músico largando sua dúvida em prestar vestibular para arquitetura, concurso para o Banco do Brasil ou entrar para a Marinha. Além disso, podia praticar concomitantemente à música, outro grande prazer: a pesca submarina.

Morador de Copacabana, o jovem imberbe começou a frequentar a noite carioca “clandestinamente”, estimulado pela música inovadora que se produzia e pelos músicos os quais se apresentavam nas boates, antes mesmo de alguém falar em Bossa Nova. Foi assim, por exemplo, que conheceu e ouviu em primeira mão Tito Madi, Johnny Alf, Lúcio Alves e Tom Jobim.

Roberto Menescal quando jovem.

“[…] o jovem imberbe começou a frequentar a noite carioca ‘clandestinamente’, estimulado pela música inovadora que se produzia e pelos músicos os quais se apresentavam nas boates, antes mesmo de alguém falar em Bossa Nova.”

Outro ingrediente colaborador para a formação de Menescal foi a iniciação ao mundo do Jazz pela amiga Nara Leão. Havia um disco em especial intitulado Julie Is Her Name (ouça ao lado) que lhe chamou atenção. Não fora a voz sensual ou o decote da bela cantora e atriz Julie London na capa do disco que o tirou do sossego, mas o som da guitarra de Barney Kessel, acompanhado por Ray Leatherwood, no baixo.

Nas palavras de Roberto Menescal: “Aquelas harmonias que ele [Kessel] fazia eram completamente diferentes de tudo o que nós tínhamos ouvido até então, e a partir daí o estilo dele influenciou o nosso modo de tocar e acelerou bastante o desenvolvimento da nossa música”.

IV – Do barquinho ao avião

Um parceiro importante não só para Menescal, mas para a consolidação dos temas amor-praia-mar-flor a mancheias na Bossa Nova foi o jornalista-compositor Ronaldo Bôscoli. Este foi fundamental para divulgar as canções que se esboçavam na nova escola musical, pois além de trabalhar no Última Hora, importante periódico da época, andava com Tom, Vinicius e Newton Mendonça.

O conhecimento da existência de um pelo outro se deu em 1956, numa reunião informal de músicos, na casa de Breno Ferreira (compositor veterano), na Gávea. Contudo, somente um ano depois Bôscoli seria convidado novamente por Menescal a frequentar as reuniões da turma na casa de Nara.

As afinidades musicais entre os dois iam além. Achavam que a música brasileira precisava sair das boates esfumaçadas e escuras e respirar novos ares, ou seja, encaminhar-se ao mar, já que os temas soturnos e os ambientes penumbrosos sonorizados pelos sambas-canções não faziam parte da vida praiana e esportista que levavam.

Como diz o jornalista e escritor Ruy Castro em seu segundo livro, intitulado Ela é Carioca – uma enciclopédia de Ipanema (Companhia das Letras, 1999), “não foi à toa que, entre 1954 e 1964, Tom (com vários parceiros) fez ‘Teresa da praia’, ‘As praias desertas’, ‘Domingo azul no mar’, ‘Surf board’, ‘Inútil paisagem’, ‘Wave’, ‘Garota de Ipanema’ e mil outras todas associadas ao mar; Menescal e Bôscoli fizeram ‘Moça da praia’, ‘O barquinho’, ‘Ah, se eu pudesse’, ‘Mar, amar’, ‘Nós e o mar’, ‘A morte de um deus de sal’, ‘Rio’ (…)”.

Toda essa perspectiva de mudanças que se insinuava na paisagem da música brasileira deflagrou-se quando, em meados de 1957, João Gilberto surgiu sem mais nem menos nas bodas de casamento dos pais de Menescal, mostrando-lhe ao violão a sua composição: Hô-ba-la-lá.

Menescal não acreditava no que estava vendo e ouvindo. Tudo o que pensava sobre música se resumia àquela figura baiana meio louca e genial. Voz e violão eram uma coisa só, ou melhor, a voz tornara-se uma extensão do violão. João Gilberto era o violão. Como executar os acordes num andamento e cantar em outro? O nó que se pretendia desatar para a moderna música brasileira alçar voos e conquistar de vez outros terrenos convergia-se à figura de João Gilberto.

Este foi mais um “dia de luz, festa de sol” na vida de Roberto Menescal.

João Gilberto: referência mundial com seu modo de tocar violão.

A partir daí, com vasto repertório de canções, a Bossa Nova ganhou o mundo, fazendo sua primeira parada no Carnegie Hall na noite de 21 de novembro de 1962. Roberto Menescal seria o primeiro do escrete a tomar o avião de volta ao “Rio de sol, de céu, de mar” por motivos matrimoniais, mas talvez estivesse apenas com saudade de ver seu “barquinho a deslizar no macio azul do mar”.

Thiago Goulart é Professor de Literatura e estudante de jornalismo (Puc-SP), com ênfase em Jornalismo Cultural pela Unicamp.

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