Severino Filho: a voz do dono e o dono da voz

Severino Filho: a voz do dono e o dono da voz

No último dia 1º de março deste ano, a música brasileira perdeu uma de suas grandes vozes: Severino Filho, que por quase 60 anos esteve à frente de um dos mais importantes grupos vocais do Brasil, ‘Os Cariocas’. Queremos fazer uma merecida homenagem a ele, nos contando um pouco sobre a trajetória do cantor e sua importância para a Música Popular Brasileira.

Pego emprestado e peço já de saída desculpas ao senhor Francisco Buarque de Holanda pelo título do texto que, na verdade, é ipsis litteris o nome da música de sua autoria lançada em 1981, em seu 19º LP da carreira, Almanaque. Sem trocadilhos, ambiguidades ou metáforas, não abordarei o entrevero judicial em torno do passe de Chico Buarque, à época, com sua antiga gravadora Polygram e a multinacional alemã Ariola, para a qual o compositor se transferira. O texto aqui nada tem a ver com a contenda, mas com a voz de ‘outro’ dono: Severino Filho, líder do grupo vocal ‘Os Cariocas’.

O grupo originou-se informalmente em 1942, capitaneado por Ismael Netto, irmão de Severino. Mas somente em 1946, com a formação oficial do grupo, além das primeiras apresentações em programas musicais como “Um milhão de melodias”, “Quando canta o Brasil” e “Canção romântica”, todos da Rádio Nacional, é que se pôde confirmar a profissionalização dos rapazes da Tijuca e o início da Era Ismael Netto (1946-1956).

O escrete primevo tinha: Ismael Netto (arranjador, primeira voz e violão), Severino Filho (segunda voz e percussão), Emmanoel Furtado, o Badeco (terceira voz e violão), Jorge Quartarone, o Quartera (quarta voz e percussão) e Waldir Viviani (percussão e quinta voz).

Dada a qualidade musical e, por conseguinte, a longevidade, ‘Os Cariocas’ tiveram inúmeros músicos que por ali passaram, mas foi a partir de 1959 que o grupo passou a ter a formação de um quarteto que se seguiu até a atualidade. Nesse momento, assume da liderança Severino Filho.

Grupo Os Cariocas em sua primeira formação.

‘Os Cariocas’ em sua primeira formação.

Os anos 60

Avançando no tempo, a Bossa Nova começou a alçar voos internacionais. E é justamente nesse momento que o conjunto desponta, na década de 60, com uma saraivada de discos clássicos gravados na Philips: A Bossa dos Cariocas (62), Mais Bossa com Os Cariocas (63), Os Cariocas de Quatrocentas Bossas (64), A Grande Bossa dos Cariocas (64), Arte Vozes (66) e Passaporte (66).

É bom que se diga: em 62, um espetáculo em específico abriu as portas definitivamente para que o grupo vocal fosse reconhecido nacionalmente e ganhasse status além-mar. O show em questão denominava-se ‘Um Encontro’. Aconteceu em Copacabana, na boate Au Bon Gourmet e reuniu a tríade imbatível que formulou e erigiu a Bossa Nova: Tom Jobim, Vinicius de Moraes e João Gilberto, além do grande baterista Milton Banana e do contrabaixista Otávio Baylei. ‘Os Cariocas’ contavam então com Severino, Badeco, Quartera e Luis Roberto. Ouça abaixo o registro da apresentação.

Severino aproveitou o sucesso para também ampliar seus horizontes musicais, travando contatos e estudando com músicos de verve como Zimbres, Koellreutter e Aída Gnattali para aperfeiçoar a técnica pianística. Deve-se ressaltar o fato de que, a partir de 1962, Severino passa a ser além de primeira voz e arranjador, o pianista do grupo. Seguro de seus projetos, além de um grande arcabouço teórico-prático, Severino lançou o grupo ao estrangeiro.

O próprio site d’Os Cariocas (www.oscariocas.com.br) destaca o disco Passaporte como “prenúncio de viagem ao exterior, e o sucesso dessa fase de ‘Os Cariocas’ estendeu-se a países estrangeiros, com retorno à Argentina para atuações em boates e televisão. Na boate da Rua Tucuman, em Buenos Aires, o conjunto teve temporada onde dividiu a noite com a lenda do tango argentino e virtuose do bandoneón Astor Piazzolla”.

Reconhecimento internacional

O auge da conquista e reverberações sonoras foi em Nova York, onde o público e a indústria fonográfica norte-americanos ficaram de joelhos à vocalização do conjunto. A apresentação em programas da NBC, como o ‘The Tonight Show’, expandiu ainda mais a veneração.

Foi assim que o maestro americano Quincy Jones chegou ao grupo e, consequentemente, produziu o disco Introducing The Cariocas, em meados de 60. Na ocasião, Jones escrevera na contracapa do álbum: “The Cariocas – a fresh new sound from Brazil – the first vocal quartet blending Bossa Nova rhythms and melodies with modern Jazz harmonies” (Os Cariocas – um novo e fresco som do Brasil – o primeiro quarteto vocal que combina ritmos e melodias da Bossa Nova com modernas harmonias do Jazz).

Capa do disco Introducing The Cariocas.

Capa do disco Introducing The Cariocas, produzido pelo maestro americano Quincy Jones em 1965.

Houve um hiato de 21 anos (1967-88), momento em que o conjunto entrou em recesso voluntário por brigas internas relativas às gravadoras estrangeiras e traduções das letras. No entanto, após o largo período sem apresentações e tampouco gravações, o grupo reorganizou-se para a temporada do Jazzmania, extinta boate do Rio, marcando seu retorno no cenário musical. Dali em diante com nova formação, ‘Os Cariocas’ não parou mais, tendo sempre à frente Severino Filho, último integrante da formação original de 1946.

Tive a grata satisfação de ter presenciado o grupo em 2013, no Teatro do Sesi, em Vitória (ES). Lotado, o espetáculo mostrara o que eu já desconfiava: Severino ao piano, modulando sua voz com o domínio total do manejo ao microfone entoando as músicas do cancioneiro nacional.

A turnê em questão apresentou o penúltimo álbum Nossa Alma Canta (2010) que, aliás, já nasceu clássico: Rio que corre, Clube da Esquina 2, Baiãozinho, Intro Jet Samba, Futuros Amantes, Rapaz de Bem… O disco tem algumas palavras do crítico musical Ruy Castro na contracapa que podem ser resumidas numa única frase que sintetiza a relevância do grupo na Música Popular Brasileira: “para mim, o que interessa é que, sempre que a música brasileira esteve num momento de efervescência criativa ou de mudança de diapasão, ‘Os Cariocas’ compareceram para mostrar o caminho”.

Ainda revolvendo minhas reminiscências, lembro que Severino antecipou em primeiríssima mão algumas das canções que contemplaria o último CD da longeva carreira d’Os Cariocas: Estamos aí, com participação especial de Chico Buarque ao dono da voz Severino Filho em Januária.

Pois bem, Severino nos deixou há pouco (1º de março deste ano) aos 88 anos, desfalcando o maior grupo vocal brasileiro. Não sabemos ainda o futuro do grupo, mas uma coisa já é possível dizer: Severino nos faz falta.

Os Cariocas - última formação

Severino Filho com integrantes da última formação do grupo ‘Os Cariocas’.

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