Tommy Flanagan e Hank Jones no Festival de Marciac: a badalação do Jazz

Tommy Flanagan e Hank Jones no Festival de Marciac: a badalação do Jazz

O que acontece quando duas lendas do Jazz se encontram? A resposta para essa pergunta pode ser o disco Tommy Flanagan & Hank Jones – Live in Marciac 1993, que apresenta os dois pianistas juntos num dos maiores festivais de Jazz do mundo, o festival Jazz in Marciac, realizado anualmente na França.

A sudoeste da França, em Gers, há uma vila medieval chamada Marciac cuja população não passa de 2000 habitantes. O local parece perfeito aos octogenários em posse de prescrições médicas determinando repouso imediato.

No entanto, desde 1978, a paz e a bonança do verão em Marciac são interrompidas por inúmeros ruídos saídos não de liras renascentistas como sói ocorrer em lugares assim, mas de trompetes, guitarras, baterias, saxofones, pianos, agogôs e pandeiretas, em espetáculos e soirées que varam a noite.

Mais conhecido como Jazz In Marciac (JIM), o festival internacional tem servido para agregar pessoas de diferentes idades, dogmas e etnias em torno do mais alto nível jazzístico que ocorre em fins de julho e perdura até meados de agosto.

cartaz do concerto

Cartaz de divulgação da edição de 2015 do festival Jazz in Marciac.

Por lá já passaram inúmeros músicos e cantores da mais alta estirpe que podem desfrutar o status da posteridade. São eles: Art Blakey, Max Roach, Dizzy Gillespie, Michel Petrucciani, Shirley Horn, Herbie Hancock, B. B. King, Nina Simone, Wynton Marsalis, Ray Charles, Buddy Guy, Ibrahim Ferrer, Paco de Lucía e muitos outros.

Houve também a ilustre participação de alguns entre nós: Carlinhos Lyra, Leny Andrade, Caetano Veloso, Jorge Ben Jor, Eliane Elias e Hamilton de Holanda.

E é nesse contexto que se insere a gravação ao vivo realizada em 12 de agosto do CD Tommy Flanagan & Hank Jones – Live in Marciac 1993.

Flanagan e Jones

Os pianistas Tommy Flanagan e Hank Jones fazem parte do mainstream jazzístico. Enquanto este é o decano do que se convencionou chamar “Escola de Detroit” – da qual fazem parte outros grandes pianistas como Roland Hanna e Barry Harris, ambos de Detroit –, aquele seguiu os desbravadores passos de Jones numa Nova York lúbrica e musical, quando se fixou por lá em 56.

Os caminhos pelos quais trilharam Jones e Flanagan são relativamente parecidos e trazem uma semelhança. Ambos acompanharam durante anos a cantora Ella Fitzgerald. Flanagan, por exemplo, foi seu diretor musical entre 63 e 65 / 68 e 78.

Após o espetáculo na bela região francesa e aproveitando as férias no clima mediterrâneo, eis que a Senhora Flanagan faz uma sugestão ao crítico Ira Gitler, responsável maior pelo registro do espetáculo:

Capa do disco Tommy Flanagan e Hank Jones ao vivo no festival Jazz in Marciac de 1993.

O lançamento do concerto, já que oportunidades como essas são raras. Foi com esse estímulo que Gitler trouxe à baila, juntamente com o professor, diretor artístico e fundador do JIM Jean-Louis Guilhaumon, a edição deste encontro, ainda que tardiamente.

Executando os temas

Tommy Flanagan

O pianista Tommy Flanagan.

Live in Marciac é um álbum duplo. No disco nº 1, o responsável pela abertura do evento é André Francis, antigo “Mr. Jazz” da Radio France, cronista e produtor de Jazz. Ao entrar no palco, Flanagan ataca com as primeiras notas na ligeira Con Man – do trompetista jamaicano Dizzy Reece – acompanhado pelo contrabaixista holandês Hein Van de Geyn e pelo baterista Idris Muhammad.

As duas músicas seguintes são de autoria do bopper Dizzy Gillespie: a primeira é um lírico standard intitulado I Waited for You, confirmando a alcunha do executor: “o poeta do Jazz”.

Já a segunda é a vibrante Tin Tin Deo, em parceria com o percussionista cubano Chano Pozo. A interpretação marcante fica por conta do surdo, bumbo, caixas, chimbau percutidas habilmente por Idris, evocando a cheia de swing Manteca, de Gillespie, Pozo e Gil Fuller. Como fechamento do primeiro round, Flanagan interpreta a sui generis Epistrophy, de Thelonious Monk.

Após um breve intervalo entra em cena Hank Jones com suas precisas notas em Speak Low, de Kurt Wiell. No segundo tema Jones mostra-se ad libitum sob as tendas de Marciac, dando início à bela e popular balada de Jimmy Van Heusen e Johnny Burke: Polka Dots & Moonbeams. Sobre esta peça Van de Geyn executa um solo melodioso e Hank a encerra com um pequeno refrão do tema e da coda. A próxima pérola sai da ágil vassourinha de Idris Muhammad em Bluesette, de Toots Thielemans. Assim, Jones finaliza o segundo round com Recorda me (Joe Henderson), citando sutilmente Eleanor Rigby, dos Beatles.

O pianista Hank Jones, um dos principais nomes da “Escola de Detroit”.

 

A terceira e última parte pertence ao disco nº 2. Era o som de misericórdia: Tommy Flanagan e Hank juntos, frente a frente, em dueto e sem a parte rítmica nas três peças seguintes: Our Delight (Tadd Damerson), A Child is Born (Thad Jones, irmão de Hank) e Confirmation (Charlie Parker). Não satisfeitos em executar um clássico de Parker, os protagonistas colhem mais dois standards na seara do velho e bom Bird. Falta mais alguma coisa? Sim… Ainda há espaço para Blue Monk, de Thelonious, numa levada à guisa de um antigo Blues.

Fica-se a impressão de que, ao selecionar o repertório, tanto Flanagan como Jones rememoram, numa espécie de autobiografia musical, suas carreiras. Mestres e discípulos, homenagens a grandes compositores e amigos, além da perpetuação do grandioso trabalho legado por essas duas figuras num registro como esse. Infelizmente não mais entre nós, Tommy e Hank nos deixam saudades de suas engenhosidades e virtuosismos musicalmente etéreos.

Thiago Goulart é Professor de Literatura e estudante de jornalismo (Puc-SP), com ênfase em Jornalismo Cultural pela Unicamp.

Deixe uma resposta