Village Vanguard: o templo do jazz – Parte 1

Village Vanguard: o templo do jazz – Parte 1

Conheça a história de um dos mais tradicionais clubes de jazz de Nova Yorque, o Village Vanguard. Ali estrearam muitos músicos de jazz no começo de suas carreiras. O local  foi palco de históricas gravações de performances que se tornaram discos famosos.

Os caminhos trilhados pelo jazz em Manhattan

É nos nightclubs que o jazz nasce e se populariza. Ainda mais se perscrutarmos a região de Manhattan na primeira metade do século 20. Antes de 1940 não havia muita concentração de bares em ruas ou bairros, cuja especialidade fosse o jazz. É importante levar em conta as casas e clubes noturnos, pois são esses quem dão a dinâmica essencial ao músico, propiciando os contratos de gravação, atenção da crítica e apresentações em universidades, teatros e festivais internacionais.

É nos nightclubs que o jazz nasce e se populariza

Dizzy Gillespie - Jazz at the village vanguard

Dizzy Gillespie no Village Vanguard

A transformação ocorre a partir da década de 40, mais especificamente na rua 52, entre a 5ª e 6ª avenidas. O Bebop, por exemplo, nasceu ali, com o trompete afiado de Dizzy Gillespie e o sax alto/tenor de Charlie Parker. Era possível vê-los em casas como o Onyx, Three Deuces, Downbeat, Kelly’s Stables, Hickory House, Famous Door, Spotlite e o Jimmy Ryan’s. Todos próximos uns dos outros. Muitos músicos como Ben Webster, Thelonious Monk, Kenny Clarke, Bud Powell, Miles Davis, Max Roach ou Oscar Pittford iam fazer as jam sessions em bares no Harlem, como o St. Nicholas, Savoy, Minton’s e o Clarke Monroe’s Uptown House.

Como a procura por essas casas era intensa pelos notívagos de plantão, o resultado natural da equação oferta-demanda foi o aumento dos preços dos espetáculos, cujos proprietários já faturavam grana alta nesta época. Isso dificultava a incidência habitual na região dos devotados ouvintes. Além disso, refém muitas vezes da caixa registradora, a música e o público começaram a se modificar e o consumo de drogas por jovens frequentadores do local crescia gradativamente. Ao final da década de 40, os bares começaram seu declínio, mudando a cena jazzística para outros locais.

Em seu périplo por Manhattan, o jazz foi gradativamente caminhando para o oeste, ou seja, ambientes próximos da Times Square, na Broadway. Hoje, porém, o bairro Greenwich Village reúne alguns desses bares ao longo da 7ª avenida. Há um que deve ser destacado dentre os demais, pois sua longevidade tornou-se o símbolo maior entre os músicos e espectadores norte-americanos e estrangeiros, considerado, hoje, o templo o jazz: o Village Vanguard.

village vanguard interior

Detalhe do interior do Village Vanguard

O endereço é o mesmo desde 1935: 178, 7ª Avenida – Sul, Greenwich Village (NYC). O proprietário da meca é Max Gordon e as peripécias pelas quais passou constam no livro “Ao vivo no Village Vanguard”, narrado pelo próprio. Os donos de clubes noturnos, principalmente no período em que o jazz ainda engatinhava, foram e são peças vitais para os músicos em início de carreira.

A gestalt econômica aliada aos conceitos estéticos envolvem circuitos e aparatos que vão além dos músicos e da plateia. As relações entre críticos, empresários e agentes, executivos de gravadoras, além dos donos de boates formam o bastidor que está por trás do sucesso de um jazzman. No entanto, para o pontapé inicial da carreira de um artista os proprietários de nightclubs dispõem de muito poder para mudar vidas, motivo pelo qual alguns não são benquistos. Agora, quando se trata de Max Gordon, a realidade é diferente, já que nunca se ouviu da boca de algum artista maldizê-lo.

Na época do declínio dos bares, Gordon manteve a convicção nos artistas de que dispunha, podendo ter ganhado muito dinheiro com as fraudes do momento que levaram seus concorrentes à bancarrota, ou seja, quando o assunto é mercado não adianta romantizá-lo e Max sabia disso. Ademais, soube também ter a sensibilidade de captar as mudanças e as propostas estéticas de músicos como Charles Mingus, Miles Davis, Sonny Rollins e Rahsaan Roland Kirk. Assim, Gordon ao longo do tempo tornou-se parte de uma crônica singular da vida urbana de uma metrópole depois que escurece.

Village Vanguard - entrada

Por mais óbvio que possa parecer, o Village Vanguard não veio à luz pronto. Nem Gordon nasceu com o tino mercadológico para fincar sua bandeira e vencer em Nova York. Vindo da Lituânia, cresceu em Portland (Oregon) vendendo jornais. Especializou-se em Literatura em 1924, no Reed College, momento em que vai para a metrópole tentar algum emprego, vivendo de bicos. Somente em 1932, quando ainda imperava a Lei Seca e os clientes levavam as suas próprias garrafas de bebida aos bares, Max saiu da inércia inaugurando com uma sócia a breve vida do bar Village Fair, pois esta lhe deixara na mão e simplesmente o abandonara.

Dois anos depois, resolve investir num imóvel, adotando o nome The Village Vanguard. Por problemas burocráticos, muda-se de local, onde descobre um porão na 7ª avenida, número 178, com a placa “Imóvel Invadido” e resolve apostar nele. Abre o bar, trabalhando como maître e caixa ao mesmo tempo. Este é o famigerado local inaugurado em 1935 e que perdura até os dias de hoje. O mais interessante, por incrível que pareça, é que o Vanguard não começou como uma casa especializada em jazz. Ali, os espetáculos eram diluídos em outras áreas artísticas e protagonizados por poetas, escritores, comediantes, dançarinos e, dentre eles, a música.

Max Gordon no Village Vanguard

Max Gordon no Village Vanguard – 1935

Os primeiros anos do Village Vanguard: a história

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