Village Vanguard: o templo do jazz – Parte 2

Village Vanguard: o templo do jazz – Parte 2

Um dos espetáculos do Village Vanguard que gerou a primeira grande crítica realizada por Dick Manson no jornal New York Post, divulgando o nome da casa e tornando-a mais conhecida, foi o “The Revuers”. A apresentação era formada por um grupo de jovens do Departamento de Teatro da Universidade de Nova York chamado “Judy and The Kids”.

Sucedeu-se a esta atração outro espetáculo de sucesso por meio da figura lendária do Blues: Huddie Ledbetter, mais conhecido como Leadbelly. A frequência de plateias numerosas permitiu ao proprietário Max Gordon realizar dois shows por noite e, mesmo assim, tendo alguns aficionados do lado de fora do porão, por não conseguirem os ingressos.

Além desses, outros nomes contribuíram para o crescente sucesso do Village, tais como: Josh White e Woddy Gutherie.

Muitos foram os artistas que passaram pelo palco do Vanguard e se transformaram em estrelas de primeira grandeza reconhecidas internacionalmente. Alguns exemplos foram os comediantes que atuaram também em outro estabelecimento que Gordon adquirira com o sócio Herb Jacobi, o Blue Angel, localizado no elegante bairro Upper East Side, em 1943, fechando as portas 20 anos depois. Figuravam entre a trupe do stand up comedy: Elaine May, futura escritora em Hollywood; Mike Nichols que posteriormente tornou-se diretor da Broadway; o escritor até então de gags Woody Allen que dispensa apresentação pelos eternos filmes dirigidos, como “Manhattan” (1979); além do mordaz e cáustico comediante Lenny Bruce.

John Coltrane Village Vanguard

Capa do disco de John Coltrane gravado no Village Vanguard

[/vc_column_text]

Somente no fim dos anos 60 que o Vanguard começou a dedicar-se especialmente ao jazz. Transitaram por ali com contratos firmados, Sonny Rollins, Miles Davis, Charles Mingus, John Coltrane, Thelonious Monk, Thad Jones, Mel Lewis, Harbie Hancock, Chick Corea, Keith Jarrett etc. Os nomes continuariam se listássemos as gravações ao vivo também históricas, às quais podem ser verificadas no próprio site do Village Vanguard (https://www.villagevanguard.com/albums).

A título de curiosidade temos os seguintes álbuns:

  • Stan Getz Quartet – Live at the Village Vanguard (1957);
  • Gerry Mulligan and The Concert Jazz Band at The Village Vanguard (1960);
  • Bill Evans Trio – Waltz for Debby (1961);
  • The Cannonball Adderley Sextet in New York (1962);
  • Elvin Jones Trio – Live at The Village Vanguard (1973).

Isso somente para enumerar alguns dos mais de 100 álbuns gravados no melhor estilo e técnica que os ouvintes de jazz exigem. Nesses encontros e espetáculos com a intelligentsia do jazz, Max Gordon escutou e vivenciou muitas histórias.

Por exemplo, na cozinha do Vanguard, onde também funciona seu escritório conjugado, a baronesa do jazz, Pannonica Rothschild, lhe revelou a surra que Thelonious Monk levou de dois policiais, quando ela, Monk e Charlie Rouse (saxofonista tenor) haviam parado de carro a fim de tomar uma água num bar à beira da estrada em Newcastle, no estado de Delaware. O objetivo era chegar a Baltimore, local da apresentação do quarteto de Monk. Os três foram presos como traficantes depois liberados e o show não aconteceu.

palco do village vanguard

Interior do Village Vanguard

Houve um momento em que para ouvir Sonny Rollins era necessário ir ao Village Vanguard. No auge, não havia concorrentes para Rollins. De fato ele foi o maior saxofonista tenor de sua geração e havia contemporâneos pesos pesados: Dexter Gordon, Billy Harper e Johnny Griffin. Sonny tocou quatro vezes por ano, ao longo de dez anos na casa, ou seja, se tornou um habitué do Vanguard.

sonny rollins village vanguard

Outro que aparecia por lá sob contrato era Miles Davis. Só ia se recebesse adiantado. Gordon dizia que era o músico mais difícil de lidar, no entanto, Miles era garantia de muito dinheiro em caixa. O local tinha de estar apropriado à maneira Miles Davis. Caso contrário, Gordon e seus funcionários recebiam um doce recado da voz roufenha do trompetista:

“Tire aquela porra de spot de cima dos meus olhos ou desligue essa merda de uma vez. Eu trabalharei no escuro, se é assim que você vai operar sua casa”.

Charles Mingus tocou no Vanguard durante 20 anos. A primeira vez foi em 1958. Para se ter uma ideia da verve desse contrabaixista, em julho de 1978 no gramado da Casa Branca o então presidente Jimmy Carter havia dado uma festa para comemorar o 25ª aniversário do Newport Jazz Festival. Mingus já estava muito debilitado e de cadeira de rodas, quando o presidente se dirigiu a ele para apertar-lhe as mãos. O público que lotava o ambiente ficou em pé para ovacioná-lo. Contudo, esse ambiente de consagração realizado para Mingus, nem sempre foi tranquila para George Wein, o produtor do Newport Jazz Festival. Este nunca havia convocado Mingus para se apresentar no evento, pois não o considerava bom o suficiente. Por outro lado, o contrabaixista, famoso por não levar desaforo para casa montou seu próprio festival, ao lado de Newport, o Rhode Island que, por sua vez, começou a desbancar George. Apesar dos contratempos, George Wein sabia do valor de Mingus, apresentando-lhe na Casa Branca como “o maior contrabaixista de jazz vivo no mundo”.

Charles Mingus

Há muitas outras histórias que podem ser narradas, por alguém que se confunde com a própria história do jazz, possibilitando que muitas carreiras decolassem à posteridade. Essa é somente uma das inúmeras virtudes de Max Gordon. Como ele mesmo diz, “a casa tem uma vida própria. E é melhor o proprietário prestar atenção aos ritmos e necessidades mutáveis desta casa. Caso contrário, perde-se o calor”. E sobre sua convicção no jazz, complementa: “O jazz não me deve nada. O jazz fez mais por mim do que eu fiz pelo jazz. Ele me manteve no ramo”. Assim é Max Gordon, assim é o Village Vanguard.

Para visitar o site oficial do Village Vanguard clique aqui

Thiago Goulart é Professor de Literatura e estudante de jornalismo (Puc-SP), com ênfase em Jornalismo Cultural pela Unicamp.

1 Comentário

Deixe uma resposta