Série ‘Cordas brasileiras’: o violão no Brasil – parte I

Série ‘Cordas brasileiras’: o violão no Brasil – parte I

Depois da viola, o violão! Fernando Duarte está de volta com sua série ‘Cordas Brasileiras’, desta vez com um artigo imperdível sobre o instrumento mais popular do Brasil, o violão. E a boa notícia: é dividido em duas partes! Você não vai deixar de acompanhar, não é mesmo? Então, boa leitura!

A chegada da família real portuguesa em 1808 traz profundas mudanças para o Brasil. Fugindo de Napoleão Bonaparte, a corte se instala no Rio de Janeiro trazendo o seu aparato cultural e dando início ao processo que transformará a então capital do país em uma cidade moderna e cosmopolita no século XIX. A formação de um público urbano consumidor de música de entretenimento possibilita o surgimento da música popular brasileira como a conhecemos hoje.

Em primeiro de março de 1837, o Jornal do Commercio anuncia a publicação do Método de Violão, segundo o sistema de Carulli e Nava. É a mais antiga referência conhecida ao violão no nosso país. A denominação violão existe apenas na língua portuguesa, provavelmente como uma comparação com a viola. Em outras línguas usa-se guitarra, termo que para nós ficou associado à versão elétrica do instrumento. O violão vem da Espanha e logo se torna o acompanhante perfeito para a nova música popular que está nascendo. Um dos primeiros gêneros de sucesso da nossa música é a Modinha, cantada nos saraus domésticos e nas serenatas nas ruas.

Os violonistas João Pernambuco (à esquerda) e Quincas Laranjeiras (à direita) com o violonista uruguaio Agustín Barrios na loja Cavaquinho de Ouro.

Ouça abaixo a Modinha Quem Sabe, do compositor Carlos Gomes, interpretada por Francisco Petrônio, acompanhado do violonista Dilermando Reis.

Na virada do século XIX para o XX começa a se desenvolver no Rio de Janeiro uma geração de violonistas com uma linguagem técnica sólida e com fortes elementos nacionais. Violonistas como Quincas Laranjeiras, Sátiro Bilhar e João Pernambuco faziam parte do grupo de chorões que se reuniam para tocar e dar aulas na loja Cavaquinho de Ouro. Unindo a técnica europeia, a prática do choro e elementos regionais, esses músicos forjaram a base do violão brasileiro. Ouça ao lado a gravação de um dos clássicos de João Pernambuco, Sons de Carrilhões, interpretado por Raphael Rabello.

Um grande admirador dos músicos da Cavaquinho de Ouro e aspirante a violonista de choro era o jovem Heitor Villa-Lobos. O compositor foi um dos responsáveis pela aceitação do violão na música de concerto do século XX, principalmente graças à sua associação com o espanhol Andrés Segovia. Ainda hoje sua obra para violão é obrigatória para estudantes e concertistas no mundo todo.

Assista o violonista Fábio Zanon interpretar um dos maiores clássicos de Villa-Lobos, a peça Choro nº1.

Com a ascensão do rádio e o fortalecimento da indústria fonográfica, o violão se consolida como instrumento padrão de acompanhamento de solistas e cantores. Além da versatilidade do instrumento, que se adapta aos mais diversos gêneros, seus músicos estavam acostumados a tocar “de ouvido” e a criar arranjos, solos e introduções de improviso. Esses fatores eram essenciais para economizar tempo de ensaios nos estúdios e cobrir eventuais vazios na programação do rádio. A mais famosa dupla de violões acompanhadores foi Dino 7 Cordas e Meira, que ao lado do cavaquinista Canhoto imprimiram seu “selo de qualidade” em centenas de gravações ao longo de décadas de trabalho. Como a que podemos escutar ao lado, com o lendário flautista Altamiro Carrilho sendo acompanhado pelo Regional do Canhoto (Dino – violão de 7 cordas; Meira – violão; Canhoto – cavaquinho; e Gilson de Freitas – pandeiro)

Mas a revolução na linguagem do violão brasileiro viria pelas mãos do multi-instrumentista virtuose Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto. Embora dominasse praticamente qualquer instrumento de corda (cavaquinho, bandolim, violão-tenor, guitarra havaiana, banjo, violino…) foi no violão que deixou seu maior legado. Inspiradas no Jazz e na música erudita, as inovações harmônicas propostas por Garoto abriram caminho para a bossa-nova e o refinamento da música brasileira nas décadas seguintes. Sua morte prematura em 1955, aos 39 anos, interrompeu bruscamente uma trajetória genial.

Mas antes de conhecermos os violonistas que deram continuidade a essa história vamos falar de outro instrumento que é a cara da música brasileira: o cavaquinho. Até lá!

Bandolinista e compositor, mestre em Práticas Interpretativas na UFRJ, licenciado em Música pela UFES, bacharel em Comunicação Social pela mesma instituição e formado em Música Popular na FAMES, Fernando é autor de alguns livros sobre choro e bandolim.

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