Why don’t you do right: a história de um blues

Why don’t you do right: a história de um blues

Veja (e ouça) a história de um blues que, ao longo de décadas, ganhou novas interpretações até se tornar um tema recorrente em talent shows tipo “American idols” ou “The Voice”.

Em 1988 Steven Spielberg lançou um filme que misturava animação e atores reais, com direção de Robert Zemeckis. O filme, “Uma cilada para Roger Rabbit”, foi um grande sucesso de bilheteria e recebeu aclamação da crítica, além de ter ganho alguns Oscars e vários prêmios.

Uma cena desse filme se destaca: aquela que se passa em um night club onde uma estonteante e sexy cantora, um desenho animado em um vestido vermelho e feições a la Rita Hayworth, canta o blues intitulado “Why Don’t You Do Right”. A cena foi uma das mais marcantes do filme e trouxe novamente em voga o maravilhoso blues que teve um grande sucesso nos anos 40 na voz de Peggy Lee.

“Why Don’t You Do Right” surge pela primeira vez em 1936 com o título “The Weed Smoker’s Dream”, composta por Kansas Joe McCoy e gravada pela sua banda, os Harlem Hamfats. É um blues de 16 compassos, considerado um “woman’s blues” e que se tornou um standard.

Posteriormente McCoy reescreveu a música, aperfeiçoando a letra e a melodia. A nova composição foi gravada, em 1941, por Lil’ Green, acompanhada pelo violão de William “Big Bill” Broonzy, tornando-se logo um hit blues e jazz.

Originalmente a música falava das perdas financeiras de um fumante de maconha. Quando foi reescrita retratou a perspectiva da mulher, parceira deste homem, que o critica pela irresponsabilidade de seu modo de viver.

Why don’t you do right, like some other men do?
Get out of here and get me some money too.

(Por que você não se comporta como os outros homens?
Saia daqui e me traga algum dinheiro.)

A primeira versão gravada por Lil Green em 1941

A música, que afunda suas raízes no blues, se insere nas temáticas comuns nos tempos da Grande Depressão e do proibicionismo. A narradora mulher, diz que o homem se encontra em dificuldades econômicas porque foi usado por outras mulheres. Então lhe pede, ou melhor, pretende que ele ganhe dinheiro para seu benefício.

A mulher reclama que o parceiro tinha dinheiro em 1922, mas que agora não tem mais nada! Reclama que isso se deve ao fato dele ter gasto seu dinheiro com outras mulheres e que essas amantes não terão mais nenhum interesse por ele agora que está pobre. Lamenta também de ter sido enganada em uma relação onde tudo o que ele tinha a oferecer era “uma bebida de gin”. Termina todos as estrofes perguntando porque ele não se comporta como os outros homens com suas mulheres; então o manda embora dizendo a ele para ir ganhar a vida para sustentá-la.

O texto da música:

You had plenty money, 1922
You let other women make a fool of you
Why don’t you do right, like some other men do
Get out of here and get me some money too

You’re sittin’ down and wonderin’ what it’s all about
You ain’t got no money, they will put you out
Why don’t you do right, like some other men do?
Get out of here and get me some money too

If you had prepared twenty years ago
You wouldn’t be a-wanderin’ now from door to door
Why don’t you do right, like some other men do?
Get out of here and get me some money too

I fell for your jivin’ and I took you in
Now all you got to offer me’s a drink of gin
Why don’t you do right, like some other men do
Get out of here and get me some money too

Uma das melhores versões conhecidas dessa música é a de Peggy Lee, gravada em 27 de julho de 1942 com Benny Goodman, em Nova Iorque, que vendeu um milhão de cópias e levou fama a Peggy Lee.

Peggy Lee sempre disse que o som de Lil’ Green foi extremamente influente para a sua música. Em uma entrevista de 1984 disse: “Eu era e sou uma fã de Lil’ Green, uma cantora de blues excepcional, […] Cantava várias vezes sua música (“Why don’t you do right”) no meu camarim, que ficava ao lado do camarim de Benny (Goodman), tanto que depois ele me disse “Obviamente você gosta dessa música” e eu respondi, “Oh, eu adoro!” e ele disse: “Você gostaria que eu fizesse um arranjo?” e eu: “Seria fantástico”, e ele fez”.

Benny Goodman e sua orquestra, 1942

Peggie Lee em outra gravação famosa de 1947

“Why don’t you do right”, que não foi o maior dos sucessos que Goodman e Lee produziram, definiu o estilo de Peggy Lee, no início de sua carreira musical, rico e apaixonado.

Peggy Lee, que se afastou de Goodman em 1943, após se casar com Dave Barbour, tinha intenção de se retirar da carreira musical e de se dedicar à vida de dona de casa, mas continuou a receber propostas para voltar ao mundo da música, em grande parte graças ao sucesso “Why don’t you do right”, que teve uma nova versão gravada por ela e Goodman em 1947.

Além das já citadas versões, a música foi gravada por vários músicos ao longo dos anos como Ella Fitzgerald, Joe Pass, Julie London, Cal Tjader e Mary Stallings, Mark Murphy, Shirley Horn, Johnny Otis, Mel Torme, Rasputina, Imelda May, Kiri Te Kanawa, Ashlee Simpson, DiggingRoots, Sinéad O’Connor, Eden Brent e os White Ghost Shivers.

July London, gravação de 1971

Ella Fitzgerald & Joe Pass, gravação de 1986

A memorável versão de “Uma cilada para Roger Rabbit”, citada no início desse artigo foi cantada pela atriz Amy Irving (nos diálogos originais a voz é a de Kathleen Turner).

A partir da animação de 1988, a figura de Jessica Rabbit inspirou novas performances da música, bem no estilo da personagem do cinema. A música, ainda, foi utilizada, algumas vezes, por talent shows tipo “American idols” ou “The Voice”.

Rebecca Ferguson no programa “The X factor”, 2010

Beatrice Verzier no programa “The Voice Switzerland” – Suiça 2014

A cantora inglesa Bev Lee Harling em uma gravação de 2013

A cantora escocesa Karliene em uma gravação de 2014

Um detalhe para os alunos do Curso de Harmonia Aplicada à Música Popular e Curso de Piano Blues:

Pianista, compositor, atua como professor e palestrante em instituições, festivais de música pelo Brasil e cursos de pós-graduação. Turi é Coordenador Pedagógico do Terra da Música e professor de alguns cursos online. É autor de métodos em livros e DVD. Em 2012, seu CD autoral “Interferências” foi publicado no Japão. Seu segundo CD faz uma releitura moderna de algumas composições do sambista Noel Rosa.

2 Comentários

  • Excelente artigo. Não só pelo conteúdo, como pela contribuição para visualizar outros arranjos.

    nelsonlerma

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