Zeibékiko: a existência em representações da introspecção

Zeibékiko: a existência em representações da introspecção

Que tal conhecer um pouco de cultura grega?! Pois é isso o que o Terra da Música traz para vocês neste artigo de Andressa Zoi Nathanailidis. Nele, ela nos fala sobre uma tradicional manifestação cultural da Grécia: o Zeibékiko, performance músico-corporal que une dança, canção e acompanhamento instrumental.

Um presente para quem ama a música e a humanidade em toda sua quase infinita variedade de manifestações artístico-culturais!

Imagine um ambiente silencioso… Pode ser um quarto, uma sala ou um quintal; a calçada de um porto ou a areia de frente para o mar. Agora visualize esse mesmo ambiente sendo preenchido, pouco a pouco, por sons de uma tristeza inconsolável, cantada e performada por um único homem. Um homem comum, solitário a improvisar em dança os sentimentos de uma vida inteira. Braços para cima, o corpo roda e se faz próprio eixo. Entre passadas largas, ele se agacha e levanta várias vezes, acompanhando os altos e baixos do próprio destino. Ao fundo, a letra melancólica nos traz uma certeza marcada em “estalares” de dedos – a de que aquilo que vivemos nos afeta e se eterniza em ressignificações e improvisos proporcionados pela arte.

A cena acima oferece um pequeno “retrato verbal” daquela que talvez seja uma das manifestações populares de maior abrangência na Grécia: O Zeibékiko. Composto, geralmente, por estruturas rítmicas de 9/8 ou 9/4, este estilo tem origens ainda muito debatidas e não confirmadas pela história.

O Zeibékiko

Em meio à sabedoria popular, há quem defenda, por exemplo, tratar-se de um folclore muito antigo, criado em honra ao deus Zeus. A vertente erudita, entretanto, sustenta que esta arte seja fruto da tradição dos Zeybeks – guerreiros que viviam na região da Anatólia (atual Turquia) e tinham como princípios auxiliar financeiramente a população pobre e idosa, proteger viajantes da ação de bandidos e, sobretudo, lutar contra o regime otomano.

Amplamente conhecida, tal versão propaga a ideia de que a tradição Zeibékiko teria chegado à Grécia em meados de 1922, após o fim da Guerra Greco-Turca (1919-1922) e também da Primeira Guerra Mundial, com a instauração paulatina de refugiados no país, sobretudo em centros como Atenas, Thessaloniki e Pireus, o que acarretou muitas transformações culturais na região. Sem emprego, esses refugiados permaneciam guetoizados, flanando à beira dos portos, onde dançavam e cantavam o Zeibékiko, estilo que, assim como o Samba, entrou para a história ocupando o lugar de manifestação urbano-marginal.

Zeibékiko: uma performance músico-corporal que une dança, canção e acompanhamento instrumental

Mais que um entreter, nesse período, o Zeibékiko constituía a manifestação ideológico-expressiva desses grupos postos à margem. Junto aos refugiados, prostitutas, trabalhadores braçais e ex-presidiários, buscavam manter esse estilo próprio, pregando-o como resistência, inclusive, aos padrões artísticos difundidos em meio às camadas mais abastadas regidas pela cultura ocidental, dita “oficial”.

Características

Apesar das discordâncias, quando se trata de considerar as características tradicionais desse estilo, há um relativo consenso. Em linhas gerais, o Zeibékiko constitui-se em uma dança que, acompanhada pela execução musical (conhecida como rebétiko) constitui uma representação músico-corporal em que se integram corpo e alma, exalando sentimentos particulares e intensos, geralmente associados à melancolia e ao deslocamento.

Nos arranjos mais antigos, era executado por pequenas formações de músicos. Quase sempre, uma voz acompanhada por buzuki (instrumento de corda, semelhante ao bandolim – ver vídeo abaixo) executava canções-narrativas, formuladas a partir de experiências de ordem privada. Essas canções eram ligadas a temas diversos, como por exemplo, a nostalgia, a ansiedade, a perda de um amor, a solidão (i)migrante, o abandono e as saudades da terra natal; os medos, as angústias…. “motivos” que versam sobre o humano e as marcas mais profundas que lhe possam ocorrer.

Abaixo, veja o vídeo de uma obra musical executada ao buzuki.

Exatamente por isso, as manifestações zeibékikas costumeiramente eram executadas às altas horas da noite, antes da “festa” acabar e sob o custo de elevadas doses de álcool. Neste momento, um solitário dançarino escolhia com cuidado a canção a ser executada, devendo ser o texto algo que lhe “traduzisse a alma” em plenitude. Só depois iniciaria a performance, sempre com as mãos abertas, em movimentos que simbolizam as asas de uma águia e, ao mesmo tempo, a sublime liberdade humana, existente mesmo diante de todas as dores, dificuldades e preocupações.

Em respeito à profundidade desse solo, as versões tradicionais não admitiam nenhum aplauso ou interrupção- o que, culturalmente, poderia ser considerado uma ofensa. Era preciso esperar, muito ou pouco, o suficiente… Medida fornecida pelo performer. Até que ele decidisse ceder lugar a outra pessoa, canto e dança deveriam ser apreciados em harmonia e respeito, numa exaltação pública do interior humano.

O Zeibékiko na contemporaneidade

Através dos anos, a tradição zeibékika se popularizou cada vez mais. Com o advento das grandes guerras e o consequente aumento da população em condições de miséria, o Zeibékiko se desenvolve em produções de autores como Markos Vamvakaris (ouça abaixo), Yiorgos Batis e Yannis Papaioannou.

A partir da década de 1950, nota-se que esta dança passa a ser praticada por todas as classes sociais. Em casas noturnas, casamentos e tavernas, a execução do Zeibékiko assume novos significados, condizentes com o contexto histórico-social da época: após a ocorrência de grandes guerras, a Grécia buscava símbolos identitários que se assumissem como expressão de um povo designado a se reconstituir em meio a ruínas. Nesse sentido, dança e música se caracterizam por um senso de virilidade e força; manifestação artística que, apesar de tudo, sobrevive, protege e representa a honra e o ímpeto de um povo- guerreiro.

Atualmente, o Zeibékiko permanece a desempenhar papéis importantes em meio à sociedade grega. Sob a influência da globalização e novas tecnologias, hibridizou-se. Nota-se hoje um mesclar de ritmos e melodias, que revelam a ressignificação dessa arte em meio ao contexto contemporâneo. Hoje, o Zeibékiko assume maior flexibilidade em suas regras: aplausos são permitidos, assim como a presença de mulheres, cada vez mais atuantes em performances desse tipo. Há que se ressaltar, também, certo “atenuar” dos sentimentos de melancolia nas performances contemporâneas; além de formações grupo-musicais mais expansivas que incluem instrumentos diversos, como o piano, o violoncelo e o violino.

Uma curiosidade

No ano de 1971, o Zeibékiko ganhou o mundo através do filme Eudóxia, uma das mais importantes produções do cinema grego. O filme narra a história de um sargento que se apaixona por uma prostituta e se casa com ela, tendo de enfrentar uma série de conflitos psicológicos e, também, obstáculos impostos pela sociedade.

O longa-metragem conta com uma cena em que o sargento, representado pelo ator Giorgos Koutouzis, aparece dançando Zeibékiko, em seus moldes mais tradicionais.

A curiosidade, no entanto, é que a performance surge desprovida de letra. Conta a “lenda” que, embora a canção houvesse sido acordada em uma parceria entre o músico e compositor Manos Loizos (1937-1982) e o poeta grego Lefteris Papadopoylos (1935- ), este teria se recusado a mostrar sua parte do trabalho, alegando não querer “estragar a melodia com a ‘soberba’ das palavras”.

Neste vídeo, você assiste à cena em questão:

Com a propagação de Eudóxia, além de ter ficado conhecido no mundo inteiro, o Zeibékiko ganhou (e ganha até hoje) uma série de releituras. Abaixo, um exemplo: a performance da cantora Xaris Alexiou, acompanhada do dançarino e ator Drosos Skotis que, intitulada Το ζεϊμπέκικο της Ευδοκίας (“O Zeibékiko de Eudóxia”), busca “retextualizar” a performance exibida no filme.

Note que, buscando certa fidelidade ao longa, o ator aparece vestido de soldado.

O que assistimos denota a inegável transformação trazida pelo tempo, além de um forte esforço em manter viva a tradição, ainda em que esta permaneça presente em meio às formas híbridas e expansões instrumentais.

Sem maiores aprofundamentos e intentando apenas apresentar um pouco do que constitui a riqueza popular presente em outras nações, encerro o texto com uma certeza: a de que, a despeito das mudanças, há algo que permanece: a potência do que nos afeta, revertida na necessária urgência das expressões.

Professora da Universidade Vila Velha- UVV/ES, onde ministra disciplinas relacionadas à literatura e produção de gêneros textuais, tem atuado também como pesquisadora, seguindo a vertente “Música, Comunicação e Sociedade”. Andressa é Doutora em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo, onde também cursou mestrado e especialização na referida área. Graduada em Jornalismo (UVV/ES), Direito (UVV/ES) e Música (Faculdade de Música do Espírito Santo) é autora dos livros “Achilles Vivacqua : vida e obra” (2008) e “ζωή [vida]” ( 2014).

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